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domingo, 29 de março de 2015

véspera do parto:
perto da canção.
o esboço de um salto
na escuridão
linhas de palavras
fina tessitura
cobra armando  bote
arma e armadura,
livra-me do medo,
manto da palavra
salva-me do espanto
de não dizer nada
sons de claridade
desfiando o breu
no fim, cara-a-cara
a canção e eu

Vivaldo Simão

segunda-feira, 23 de março de 2015

Lili

Lili tinha tranças ligeiras
que adejavam enquanto fugia
de mim após o abraço
que roubou numa armadilha

eu usava roupa nova

com gravata borboleta
e era bobo feito bicho
que caiu em arapuca
um abraço foi tudo que Lili me disse.
levei para além da infância
para entender...
Lili subiu pras estrelas
quatorze dias depois
suas tranças não puderam
conter o corpo pequeno
de menina caindo
do alto de uma mangueira
e partiu na derradeira febre

Vivaldo Simão

Bandeira branca

foi preciso ser triste
nos primeiros anos
para achar no escuro
a chave da porta
posta sobre os versos
(os primeiros que amei)
depois pulei carnaval
nas entrelinhas dos sonhos
e soprei pra bem longe as cinzas
do último dia
meu coração não precisa mais
de dor e espanto
pra cantar
e eu canto
para encher o espaço
com tudo de mim

Vivaldo Simão

quarta-feira, 11 de dezembro de 2013

Prece pagã 2

Senhor,
 conceda-me a graça de ser tolo e manso
como um bicho que pasta na linha do tiro
ignorante da eminência da morte
dá-me a mudez ou a prisão
de dizer não ao sim e sim ao não
quando meu coração quiser falar
permita que eu seja cego
quando meus olhos indigestos já de tanto horror
provarem novamente esse banquete
de imundície humana cotidiana
que eu seja submisso e burro
como as donzelas dos séculos perdidos
à espera de um amor forjado
pela tradição
só assim serei então
debilmentalmente feliz
e abrirei os dentes
extasiado pelo gozo de ser igual
às  doces crias do meu tempo.

Vivaldo Simão

Sertão de dentro

eu nunca provei primaveras e outonos
nem ruminou minha pele o mar
os meus olhos só sabem das paisagens de pedras e espinhos
de verões perdurando entre efêmeros invernos
sei do som do vento geral sussurrando poeira
sei das palmas calejadas das mãos do meu pai
e se faço versos sobre o mar
é porque tenho sede
e  nada sei do sal

Vivaldo Simão

Entretenimento

entre ter-se no egocentro
traste velho entulhado
em cima de si mesmo,
ensimesmado
e ter tecido o teu riso
nos dentes do outro
e o ID ficando alado
melhor que sejamos nós
num riso compartilhado
Identificados

Vivaldo Simão

Enredo

com a  Kardec
teço almas: a minha e a tua
aí vai ser loucura!
enlinhados, nós em nós
urdidura e trama
até que nem a morte nos separe
pra não ter mais drama

Vivaldo Simão

terça-feira, 4 de junho de 2013

Finis hominis



o Co2, o tédio, o cansaço,  o vício
os estragos de um amor mal resolvido
o custo de vida, a baixa renda, o nepotismo vitalício
o freio falho, a lei de Murphy, o transeunte distraído
o emprego maçante, o engarrafamento,
um salto da janela do apartamento
e tantos outros crimes sem perdão
nos apartam da eternidade,
esse nosso anseio esquivo e alado
finis hominis est necessariam malum
está consumado

Vivaldo Simão

Grávido

sai de mim
como fruto
sêmen semente
sol nascente,
que me oriente
meu acidente vital
sal de mim
que me dá sabor
me tempere
paz de intempérie que esvanece
meu pretérito futuro
que o agora tece
pedaço do meu pai
e do filho do meu filho
som que sai de mim,
do meu sangue
meu estribilho
acorde que me adormece
das dores de parto do mundo
cantiga de ninar teu pai.

Vivaldo Simão

quinta-feira, 5 de julho de 2012

Rima de areia e mar

a vida tá de onda na minha cabeça
e esse seu sotaque quase cigano
vem surfando em meu ouvido,
vagaroso, feito som de vento,
insinuando uma rima
entre a areia fina
e o mar
!!!
vaga a impelir
e abraçar

Vivaldo Simão

segunda-feira, 4 de junho de 2012

Agosto


lembro agosto chegando
letal e lento
passando
rio silente
lava quente de vulcão
abrasando a minha casa
minha asa
minha cama
minha sorte
Aí agosto endoideceu meu norte
a primeira morte que provei.

meu passado? estagnado
num BR-o-bró sem fim:
desde que passou agosto
no meu peito fez-se estio
nem vestígio de janeiros
nem flor de mandacaru
no chão rachado do meu rosto
eu hei de vencer agosto
antes de agosto, a mim

Vivaldo Simão

Das coisas que sei do tempo

Um convite pra falar do tempo e eu busco uma fresta, uma réstia de ideia. Vou ao Google: 145.000.000 resultados. Nenhuma resposta. De que tempo estamos falando afinal? De Kairos ou de Chronos? Do tempo da moça do jornal, com nuvens carregadas no fim da tarde, pancadas de chuva no começo da noite? Previsões do tempo são possíveis? Tenho comigo que tempo é o que chamam Deus ou talvez maior que isso. Pensa comigo: Onde vai dar o tempo? De que nascente brota? A gente olha e a resposta é oca. O tempo é imenso e só. Do tamanho de que? De quem? Do tamanho do tempo! Nada é mais que o tempo! Tenho comigo que isso é o que chamam de Deus: o infinito adiante, correndo em frente, deixando pra trás o rastro do infinito. O tempo é como a historinha da cobra que morde o próprio rabo. O coelho de Alice não tinha tempo. “A farta falta de tempo consome o tempo das coisas” mas a falta de tempo ainda é tempo. O tempo que não se tem é tempo. O tempo... paradoxo! Vejamos: ..., não, não. Ainda não entendo! Pergunto um dos maiores homens do seu tempo. Ele responde: “Uma ilusão. A distinção entre passado, presente e futuro não passa de uma firme e persistente ilusão.” Mas eu sei que isso ainda não é o tempo. As pedras não se iludem porque não percebem. A ilusão só ataca aquilo que pensa e sente. Muito antes da consciência e das sensações havia o tempo. Aliás... Aliás, sempre houve o tempo."Oh Tempo Rei! Ensinai-me, oh Pai! O que eu, ainda não sei." Eu nada sei sobre o tempo.Tanta coisa pra dizer. Nada de concreto. Quer saber?! Já é tarde. Nada mais a dizer. Não há tempo!

Vivaldo Simão

domingo, 3 de junho de 2012

Dois em um

Maiakovisk já dizia:
 "endoideceu minha anatomia: eu sou todo coração"
 quisera eu que a mim assim se sucedesse,
 que a minha de tal modo enlouquecesse
 antes isso a essa tão inconciliável dicotomia
 porque digo: na minha anatomia,
 toda ela é tão somente
" célula do caos em combustão"
é peito bradando guerra
 onde o resto anseia trégua
 é briga de água e brasa
 dança de brisa com furacão

Vivaldo Simão

quinta-feira, 26 de janeiro de 2012

Retrato de um poeta bissexto

traço minha rota torta
feito a linha que comporta
a letra de um deus
bisexto de verso e aniversário
prematuro, libertário
poeta e ateu
ora bato a asa
ora bato à porta
minha carne mal suporta
esse anseio meu
nessa ânsia que me cabe
de abarcar o mundo
antes que mundo me abarque
e se acabe
antes que mundo me abarque
e acabe
embalando-me em meu próprio berço
embolando-me em meu próprio passo
recolhendo-me no vasto universo meu

Vivaldo Simão

Maravilha de sal

o mar é maravilha
maré cheia de acalanto
é água benta de quebrar quebranto
canto bom que entoa a voz do vento
quando transborda e nos encharca
de brisa e maresia
e outras alegrias
carentes do cais
que lhes somos nós
o mar é esconderijo turvo
de benções e perigos
pois ai de nós
se o mar nos traga,
mas se o mar nos trás
ruminadas coisas de sal
que sejam o nosso sustento
ou alguma brisa que nos beije
que nos seja alento
num ocaso qualquer
o mar será maravilha
maré cheia de tudo que brilha
longe dos olhos de quem vive
aquém da barra da saia do mar


Vivaldo Simão

terça-feira, 24 de janeiro de 2012

A sua presença moça

a sua presença moça
interna em mim
é coisa que não se cansa
não cessa
feito a volta das horas em torno dos dias
e como o mar a ruminar o sal
e o céu aos sóis e luas
assim sucede essa presença sua
que tanto translada quanto rota
em volta do amor que mora
em mim

e ainda que longe você mesma
esteja
da moça que vejo
quando olho a criatura
inquilina do meu desejo
que uma vez tendo em mim
abrigo interno
nunca dei despejo
vejo moça ainda
e quanto mais ausente, moça
mais sua presença
nunca finda


Vivaldo Simão

segunda-feira, 28 de março de 2011

Matéria bruta

Dava pra fazer um monumento de mármore à paz, em Lower Manhattan
Com a frieza branca que transborda do peito desses homens
Dava pra reerguer Hiroximas e Nagazakis
Com a força bruta que brota dos braços desses homens
Quando agridem e ferem,
Nas ruas, nos bares, nas lutas, nos lares
Com o fogo que arde nesses homens, derreter-se-iam grilhões e grades
E todo o gelo dessa era glacial dentro de nós
Dava pra construir centenas de milhares de cidades
Nos quilômetros baldios dentro desses homens
Neles abrigar-se-iam meninas chinesas largadas nas ruas
Legadas à morte por inanição
Caberiam os gêmeos, os fisicamente imperfeito, os débeis mentais,
Culturalmente enterrados vivos nas tribos indígenas da América
Caberiam os mendigos e os meninos senis esquecidos
Pela maquinaria construtora da ordem e progresso mundial
Caberiam serenos asilos, com jogos nas calçadas, café com prosa e sorrisos
Caberiam escolas e escolhas que aqui fora já não cabem
Quantas flores e frutos teriam comportado
O espaço improfícuo dos Campos de Auschwitz?
Quanto sangue derramado nos campos de batalha, nas chacinas diárias
Enquanto filas infinitas estendem-se nos bancos de sangue.
Com as mãos que atiram pedras sobre o véu que cobre o corpo
Das mulheres do oriente
Cavar-se-ia a terra, arrancar-se-ia novas fontes
Em cujas águas matariam a sede os sertões
E converter-se-iam Saaras em searas

Vivaldo Simão

A Besta pop

Do além-mar da midiocracia
Emerge a grande besta pop e se anuncia,
Mistificada, à multidão
Histericamente mesmerizada
Historicamente mesmificada
E beija-se, e curva-se, e baba-se os pés
Da grande besta pop
Mãe amada
Dos esboços de astros
Dos projetos de deuses com fomes de flashes
Vampiros sedentos
Retratos de tempos de porca miséria emocional
Mas outros astros, tão mais nobres
E muito mais loucos
Pairam muito além desse mar
E aprendem a beijar a pele do céu


Vivaldo Simão

quinta-feira, 3 de fevereiro de 2011

Poema da amiga ausente

A imagem da imensa ausência tua
Me acompanha na viagem
Levo de volta, na bagagem, sólida saudade
Solidão que eu quis minguar
com teu abraço
Eu era a visita esperada
e esperei você
Como quem, insone, espera o dia
E minguei
Ali silente, em agonia
Doente pela ausência do signo de luz
Ao qual me conduz o teu nome.

Vivaldo Simão

quinta-feira, 29 de julho de 2010

As pedras do novo tempo (Versos para um tempo de meninos fendidos)

A Drummond

Caro Carlos
No espaço secular que nos separa
Deu-se a antimágica,
Apoética semântica,
E deslapidaram-se as pedras do meu tempo
Tempo de palpáveis pedras despidas de abstração
Endurecidas pela feiura de um púbere século
De meninos emuralhados
Alimentando internos cães famintos
De dez em dez minutos
Que erigem, no espaço outrora peito, novas Hiroximas
Irradiando a cancerígena escassez de espírito
A rosa do meu povo fenece.
E a aridez de uma nova raça promove o auto-holocausto
Um estado novo de meninos encanecidos.
Ensandecidos.
Incandescidos.

Tempo gauche
Em que os homens entortam anjos

Vivaldo Simão