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domingo, 29 de março de 2015

véspera do parto:
perto da canção.
o esboço de um salto
na escuridão
linhas de palavras
fina tessitura
cobra armando  bote
arma e armadura,
livra-me do medo,
manto da palavra
salva-me do espanto
de não dizer nada
sons de claridade
desfiando o breu
no fim, cara-a-cara
a canção e eu

Vivaldo Simão

domingo, 23 de novembro de 2008

Parto

Este sou eu: alguém que busca.
Ante a hermética face que eu não conhecia
Eis que estou aqui, buscando em mim
Um resquíscio qualquer de poesia

E a poesia, o que é?
Um jorro do magma dos subterrâneos do meu peito?
Uma polaróide do universo exterior filtrado e impresso?

E a poesia, como fazê-la?
Encaro-a, esfinge, sem sabê-la
E ela ri com o canto da boca e diz:
"Decifra-me ou te devoro!":
"A poesia é a pergunta e a própria resposta"
Eis que pari um poema


Vivaldo Simão

sexta-feira, 12 de setembro de 2008

Fetiche

A poesia não bate à porta
Salta sobre a janela
Contamina a casa

Todo poeta é uma virgem
À espera da poesia
Ela chega num cavalo branco
E toma o poeta pra si
Deflora o poeta

A poesia é sádica
Cospe um não na cara do poeta
E se nega
Enquanto se insinua
De mordaça e chicote
Exulta ante a súplica do poeta

A poesia é o pesadelo do poeta
Irmã da musa de olhos arregalados: insônia
Mas quando vem e se dá
É gozo de alma e carne
É delírio onírico do poeta disperso

Vivaldo Simão