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segunda-feira, 28 de março de 2011

Matéria bruta

Dava pra fazer um monumento de mármore à paz, em Lower Manhattan
Com a frieza branca que transborda do peito desses homens
Dava pra reerguer Hiroximas e Nagazakis
Com a força bruta que brota dos braços desses homens
Quando agridem e ferem,
Nas ruas, nos bares, nas lutas, nos lares
Com o fogo que arde nesses homens, derreter-se-iam grilhões e grades
E todo o gelo dessa era glacial dentro de nós
Dava pra construir centenas de milhares de cidades
Nos quilômetros baldios dentro desses homens
Neles abrigar-se-iam meninas chinesas largadas nas ruas
Legadas à morte por inanição
Caberiam os gêmeos, os fisicamente imperfeito, os débeis mentais,
Culturalmente enterrados vivos nas tribos indígenas da América
Caberiam os mendigos e os meninos senis esquecidos
Pela maquinaria construtora da ordem e progresso mundial
Caberiam serenos asilos, com jogos nas calçadas, café com prosa e sorrisos
Caberiam escolas e escolhas que aqui fora já não cabem
Quantas flores e frutos teriam comportado
O espaço improfícuo dos Campos de Auschwitz?
Quanto sangue derramado nos campos de batalha, nas chacinas diárias
Enquanto filas infinitas estendem-se nos bancos de sangue.
Com as mãos que atiram pedras sobre o véu que cobre o corpo
Das mulheres do oriente
Cavar-se-ia a terra, arrancar-se-ia novas fontes
Em cujas águas matariam a sede os sertões
E converter-se-iam Saaras em searas

Vivaldo Simão

quinta-feira, 29 de julho de 2010

As pedras do novo tempo (Versos para um tempo de meninos fendidos)

A Drummond

Caro Carlos
No espaço secular que nos separa
Deu-se a antimágica,
Apoética semântica,
E deslapidaram-se as pedras do meu tempo
Tempo de palpáveis pedras despidas de abstração
Endurecidas pela feiura de um púbere século
De meninos emuralhados
Alimentando internos cães famintos
De dez em dez minutos
Que erigem, no espaço outrora peito, novas Hiroximas
Irradiando a cancerígena escassez de espírito
A rosa do meu povo fenece.
E a aridez de uma nova raça promove o auto-holocausto
Um estado novo de meninos encanecidos.
Ensandecidos.
Incandescidos.

Tempo gauche
Em que os homens entortam anjos

Vivaldo Simão