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segunda-feira, 23 de março de 2015

Poema de Fim de Tarde

Nada de música ou pasto,
Nem campina nem floresta;
Tudo no mundo é tão vasto,
Mas a mim tão pouco resta.
Já não canto, já não sou
Poeta de coisas bonitas:
É que asas não alçam voo
Com tantas penas caídas.
Rogério Freitas

terça-feira, 4 de junho de 2013

Arpejo

não me acordes com doces acordes
acorde-me para trabalhar,
para suar e me exaurir.
não me faças sonhar acordado
anestesiado sou menos cauteloso
deixa que eu delire apenas nos teus braços
do momento do amor
mas antes quero a realidade
quero estar cansado ao fim do dia
e com dor de cabeça
quero me preocupar e pagar as contas.

só assim nossa casa
poderá ser edificada sobre a rocha.


Rogério Freitas.

Consenso sobre o Sonho

Nunca fora registrado acontecmento parecido. Ouvimos falar de muitas coisas, porém de casos isolados: que uma pessoa durma perturbada e tenha sonhos assustadores, que novidade há nisso?! Mesmo que durma tranquila, ainda assim poderia tê-los. Falo de um caso real e incomum, mesmo se tratando de uma pequena cidade, com pouco mais de 40 mil habitantes. Chuva intensa e noite monótona. Todos se recolheram às suas casas mais cedo, visto que o dia seguinte seria de muito trabalho. Entre relâmpagos e rajadas de vento, corpos se debatiam, se contorciam. Outros se levantavam, buscavam água, mas retornvam para o mesmo tormento, para a mesma fadiga e impaciência entre um delírio e outro. Uma visão pictórica e irreal das coisas se projetava na mente de cada um; Ninguém entendia, mas se tratava da realidade, da realidade que por ora ainda não era o fim.
Na manhã seguinte, todos se mostravam intrigados ao contar o sonho para alguém: Os outros haviam sonhado a mesma coisa, assim, todos concluíram que tinham tido o mesmo sonho ao longo da noite. Não demorou! A rádio fez suas especulações e outros meios de comunicação fora da cidade fizeram as suas; Concluiram em dois dias que o mundo todo tinha tido o mesmo sonho. A mesma coisa! Como isso era possível? Uma paranoia mundia? Ninguém entendia e muita preocupação veio sobre as pessoas. A Ciência não conseguia explicar, ninguém conseguia explicar; Muitos buscaram a morte sem sucesso, muitos buscaram a Deus sem sucesso. O desespero foi total e o medo, assolador; Nações inteiras se levantaram...Até que a trombeta soou, para a alegria de uns e a tristeza de outros.

Rogério Freitas

segunda-feira, 4 de junho de 2012

Marcas

Uma imagem sinuosa, meio torta
no espelho côncavo das claras águas,
personificação das nossas mágoas
frente a ela, essa alegria não suporta

Em que mundo de luz é que desaguas?
há alguma esperança à tua porta?
São cicatrizes ou rugas? (Que importa?)
- É o movimento sísmico das águas

Não foste criatura de beleza
ainda mais que tu foste abatido
pelo dilúvio austero da aspereza...

E mesmo ante as agruras, comovido,
eu ainda contemplo com surpresa
Meu semblante nas águas refletido.

Rogério Freitas

quinta-feira, 2 de fevereiro de 2012

Música Mista

Ainda bem que ela volta
Com seus sortilégios
Com sua astúcia

Brinca em meu peito
Devolve meu riso
E minha angústia

Traçar cada linha
É o nosso objetivo
E como recompensa
Ganhamos apenas satisfação

Os contratempos vêm
As dificuldades vêm
Mas tudo isso
Encaramos juntos
Cada um cúmplice do outro

Quando ela vai
Não sei se demora a voltar
Só tenho certeza
De que voltará
Porque o que fazemos
É também vida
E a vida um poema sem fim


Rogério Freitas

quinta-feira, 26 de janeiro de 2012

Estatística

todos fazem parte dela
o gari, o pedreiro, o carpinteiro
o vigia...
menos seu Zé
homem do sertão, solitário,
que mora em uma choupana
desconhecida pelo IBGE

ele labuta arduamente
pra comer, pra beber, pra se vestir
e tudo com honestidade
é uma pepita de ouro
em meio a um deserto

ele canta
entoa suas canções alta noite
conte (olha) estrelas e sonha
cada um aprende a ser feliz
lá à sua maneira
como também aprende a não culpar
os outros pelas suas tristezas

e seu Zé é assim
contente com seu destino
não sabe ao menos
quem é o presidente
e não faz mal
o presidente também
não sabe quem é ele

Rogério Freitas

terça-feira, 24 de janeiro de 2012

Lívre arbítrio

misterioso é o ser e não transmuta
sempre irial ou sempre iracundo
carrega dentro de si, no "eu" profundo
essa carga imutável e absoluta

e sua vontade é dissoluta!
mas as escolhas perante este mundo
sequer o distanciam um segundo
da inexorável e real conduta

sempre aprisionado a seus anseios
o homem, não importa quais os meios
busca seus sonhos como em labirinto

e o ser, que se acredita ter mudado
apenas teve seu sonho saciado
ou conteve à força seu instinto

Rogério Freitas

terça-feira, 12 de abril de 2011

Solitude II

No pequeno porto
A barca só
Na pequena aldeia
Abarca só
Seus sonhos o pescador

Rogério Freitas

segunda-feira, 28 de março de 2011

Por seus olhos

Apenas vi um olhar reluzente
A iluminar meu coração impuro
E, nessa hora, a esperança de um futuro
Vigorou no meu peito novamente.

Apenas vi um olhar reluzente
Que me falando co ardor de amor puro
Resgatou coa bondade do escuro
A triste alma deum corpo decadente.

Apenas vi um olhar reluzente
Cujo brilho singelo, em minha mão,
Deixou a cura para um ser doente.

E depois desse bom primeiro passo,
Eu finalmente corri para o abraço
Da vida, da paz, da libertação.


Rogério Freitas

Quando Ela Passa

Quando ela passa,
Com seus passinhos sutis,
A rua se enche de graça,
Trabalha o povo feliz.

Quando ela passa,
Toda a nossa rua sonha,
E o homem casado disfarça
Que já perdeu a vergonha.

Quando ela passa,
O adolescente matreiro
Olha seu corpo de raça,
Vai se trancar no banheiro.

Quando ela passa
Em frente do bar da esquina,
Seu Zé dá pinga de graça,
Só por causa da menina.

Quando ela passa
No açougue do seu Lisboa,
Grita ele com muita raça:
- Já chegou a carne boa!

Quando ela passa
No mercado do Clemente,
A freguesia escassa
Se transforma em muita gente.

Quando ela passa
No lanche do seu Joel,
Ele descuida da massa,
Mas sai bem feito o pastel.

Mas quando ela não passa
- Que tristeza nos rodeia!-
Tudo na rua se embaça,
Toda a gente fica feia!

Rogério Freitas

sábado, 5 de junho de 2010

Soneto de Fundo de Quintal

Namorar as paisagens mais que belas,
Ouvir da natureza seu gemido;
O lavrador suado, em alarido,
Arriscando as toadas mais singelas.

Absorver todo o eflúvio das estrelas
Sobre as rosas ou no ar amanhecido,
Admirar mesmo o vento desabrido
A bater incessante nas janelas.

Abraçar os alísios à tardinha,
Quando o sol se debruça e dá à vinha
E ao horizonte calmo a cor mel,

Depois no ateliê em alto adro
Misturar tudo, sorrir; eis o quadro
Pintado com palavras no papel.


Rogério Freitas

Inocência

Lá estão eles, ambos garotinhos,
Ele segura a bola, ela a boneca
Sorridente o garoto e mais sapeca
Chega-se a ela, confessa segredinhos.

Ela sorri, mostrando seus dentinhos,
De lado deixa um pouco a tal boneca,
Lhe faz um gesto. Ele ri, não se peca
Quando a intenção é receber carinhos.

Se lá chega outro ou outra com carência
De lhes falar; não, não se vê furor,
Nas faces só a mesma complacência.

A sós de novo, volta o mesmo alvor,
Aquela doce ingênua confidência...
Só mesmo na inocência existe amor.

Rogério Freitas

segunda-feira, 22 de fevereiro de 2010

Premonição

Te seguirei ciente e peregrino,
Eu bem sei: todo o esforço não é em vão;
Nos unirá corpo a corpo o destino,
Ou nos porá na mesma solidão

Rogério Freitas

quarta-feira, 30 de dezembro de 2009

Gira mundo

O dia vem vindo – contemplo daqui
O sol que dos montes me surge luzente
Mal surge tão rubro transforma o espaço
Um pássaro ao longe me canta dolente

O dia vem vindo da minha janela
E eu vejo o começo da vida agitada
Os homens dominam, os carros dominam
O meio da rua, também a calçada

A aragem amena se extingue com o sol
É grande o bulício; Já não mais contemplo
Os homens não lutam aqui pela vida
Somente desejam erguer o seu tempo

Esquecem com a pressa seus próprios irmãos
Nas mãos a ganância, só raiva e rancor
Com o mundo girando na busca incessante
Quem pode ao menos falar de amor?

Meu peito, que sofre dos males da vida
Espaço não acha no mundo egoísta
Valores que tenho me foram negados
Apenas os tenho pagando analista

Rogério Freitas

Jeremias e Dália

* A um casal oeirense

Jeremias, o grande itinerante,
Pôs o seu caminhão na escura estrada;
E após beijar Dália, sua amada,
Em lágrimas partiu no seu possante.

Dália, bela mulher dissimulada,
Fez prece, mas sozinha riu no instante
Em que Jeremias, seu viajante
Sumiu na escuridão da madrugada.

Jeremias – pobre homem enganado!
Tendo a certeza de ser muito amado,
Seguia felicíssimo ao volante.

Dália, naquele instante de sarcasmo,
Previa já o mais gostoso orgasmo
No corpo varonil do seu amante.

Rogério Freitas

domingo, 23 de agosto de 2009

Rosa dos ventos

Da noite o imenso véu cobriu o mundo
Findou-se o dia; Para uns temerário
Para outros da agonia o sudário
E tanto caos de amores oriundo

Hoje assim tão raso, ontem tão profundo
Risos alegres, dores do calvario
Caminho bom, péssimo intinerário
Do sagrado ao profano num segundo

A noite pouco a pouco se acentua...
Cobrindo o campo a palidez da lua
Nas ramagens um fremito, um açoite

E a humanidade toda amanhã
Seguirá de novo a rotina vã
Cobriu o mundo o imenso véu da noite.

Rogério Freitas

sexta-feira, 21 de agosto de 2009

Haicai aos teus olhos

Teu olhar retrata
A água, o crepúsculo, a ave.
O verde da mata

Rogério Freitas

quinta-feira, 6 de agosto de 2009

Haicai do lavrador

A Eduardo Persa
Mais uma colheita,
O riso banguela, a reza...
A vida está feita
Rogério Freitas

segunda-feira, 3 de agosto de 2009

Haicai sertanejo

A chuva não cai...
O medo, os filhos, a esposa...
“É o jeito!” E se vai.

Rogério Freitas

terça-feira, 12 de maio de 2009

Mágica

Meu bem, que a VIDA não vale a pena
E os retratos não guardam alma pequena
O que vale a beleza se não é gentil?
O que vale o sorriso se não é fato consumado?

Não há morte mágica nem sorte que valha
A pena que deixe o espelho assim: torto
O avesso da beleza é um riso frouxo
E a largura do riso tem dentes consumidos

O que vale amar se a beleza tarde?
E a manhã te verá feia
E amanhã baterei à porta de uma nova beleza
E certamente ela baterá a porta e morrerá também

Edilberto Vilanova e Rogério Freitas