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segunda-feira, 23 de março de 2015

Astrolábio

E mesmo que troquem os astrolábios por satélites
Mesmo que as bússolas se tornem GPS´s
Que o seu astro seja sempre o meu lábio
Decifrando a geografia da sua pele
Como nau que não teme os mistérios do mar
E navega sem medo de naufragar
Apenas enxerga a boa nova de sua terra
Mamilos, umbigo, pernas e céu
Gotas de eternidade em meu paladar
Belezas de sal que desviam o escarcéu de viver
E acordam a precisão de navegar.

Edilberto Vilanova

quarta-feira, 11 de dezembro de 2013

Luas

a Ceicinha

às vezes você vem lua nova
e repousa em minhas constelações
vez por outra desponta crescente
repentinamente lua
iluminando ruas
se sua estrela se ofusca
tudo em meu quarto míngua
mas se você paira lua cheia
gravito em seu céu
e visto minha vida de luz

Edilberto Vilanova

segunda-feira, 4 de junho de 2012

Puberdade

Minha infância sem rios
se fez barquinho de papel
e naufragou
nas águas turvas da cacimba
do interior de minha adolescência

Edilberto Vilanova

quinta-feira, 26 de janeiro de 2012

Namoro de astros

A gravidade do amor
paira sob o lençol celestial
duas luminárias seculares
velam as noites
Um cavaleiro cavalga na pele crua da lua
no seu cavalo branco
de espada em punho
São Jorge, devorador de dragões
Vestido de luz
nosso romance flutua:
você Vênus
baila entre as galáxias, nua
Iluminados pelo sol
seguimos lado a lado
passeando pelas eras
você Dalva, eu lua

Edilberto Vilanova

sexta-feira, 1 de abril de 2011

Despertador

Ao despertar da dor
a exatidão do tempo rompe em silêncio
em rascunhos e fagulhas
De novo o alvorecer do sonho retirante
a abrir feridas
o corpo se desfibra e arde novamente
o sol recorta as víceras
e espelha pelos escombros de qualquer mercado
flores e lástimas cobertas de vítimas
Não mais vozes do silêncio
agora mapas do acaso
não mais amores vãos
agora resquícios de orgasmos
nada mais de escuro
Agora louvores
Cores e atores
Abram as cortinas para o teatro corrosivo do dia
repleto de dramas
recomeça mais um grande ato
amargo e mágico de viveres.

Edilberto Vilanova

segunda-feira, 28 de março de 2011

Os olhos do tempo

Tudo se dissolve nos olhos do tempo
Os feixes de palavras
As tranças das sandálias
As catástrofes diárias

Tudo se dissolve nos olhos do tempo
Os instantes de cansaço
Os corpos decepados
Os crimes indecifrados

Os acontecimentos, as rosas abortadas
Os edifícios, os rumos das estradas
Os jornais, as revelações
Tua glória e teu declínio
Teu riso e tua lágrima
O que foi profetizado
O que foi ofertado
O que virou vapor e o que se solidificou
Os amores presentes e passados
O que ganhou forma e o que ficou abstrato
Teu perdão e tua mágoa.
Tudo se esmaga nos olhos do tempo.


Edilberto Vilanova

Poema de reconciliação (aos meus pais)

O beijo se refez.
As bocas fechadas e mudas
Entreabriram-se de súbito

No fim do estio
Um relâmpago
Cortou o silêncio das nuvens
E das veias de chuvas
Esvaiu-se a sangria dos açudes
Encorpados
Os lábios de nuvens se tocaram
Fizeram trovoadas
Abrindo um tempo de fartura

A transubstanciação da vida
Recompôs-se na rota das abelhas
No aguaceiro dos riachos
Na pele mordida das mangas
Na sabor rosamarelo das goiabas
No ciclo do beija-flor
No mormaço da tarde

“Quebrado o gelo do riso”
O silêncio quebrado
Quebrado o tempo mal vivido
A agulha pontua novamente
O alinhamento das costuras
E tece agasalhos para o inverno
A coruja agourenta
Que cantava: nunca mais nunca mais
Na árvore do terreiro
Voo pras lonjuras
Onde pousou a zabelê
Cantando as chamas de novas manhãs.

Edilberto Vilanova

terça-feira, 15 de março de 2011

CINEMA MUDO

Nas horas habitadas por nós
só o silêncio nos povoa
tudo em nós perde a voz
nossos gestos mudos
nossas palavras surdas
nossas vidas caladas
caladas nossas vontades
nossas formas incompletas
partindo em retirada
no espaço ermo do nosso mundo, desmoronado
nossos corpos desabitados
nossos instantes de consumo
consumindo-nos
no calor das horas habitadas por nós

E no filme que nos revela
imagens fragmentadas
do amor que ainda fingimos fazer morada
em nossas ruínas.

Edilberto Vilanova

sábado, 9 de outubro de 2010

A louca

Não trazia nada nas mãos escalavradas
A não ser gestos inconfidentes
A não ser a calidez das estradas

Trazia grudado ao sapato:
sóis e sangue,
mangues, mares e sertões

trazia no corpo maculado
Vestido em farrapos
a escassez de gente

e sobre os ombros cansados
um alforje de bugigangas
sem serventia

Trazia grudados ao peito:
Medo e segredo
Dores, canseiras e solidões

Desconhecida de si
Achara-se nos caminhos da loucura
perdera o juízo
E nunca mais se julgara.

Edilberto Vilanova

sábado, 5 de junho de 2010

Inscrição na pedra bruta

A chuva se armou
com trincheiras, foices e machados:
a todo vapor reuniu
um batalhão de soldados nas nuvens
que desceram pingo a pingo
alastraram-se em correnteza terra adentro
arrastaram casas e faces.
e depois de um árduo trabalho
escreveram na pedra bruta do morro velho:
erosão.

Edilberto Vilanova

Prosa moderna

O sexo ativou os satélites do ID e não houve EGO nem SUPEREGO que invadisse seu sinal: ele pintou e bordou. Rompeu os bits da internet. Provocou orgasmos múltiplos na tela cibernética. E enquanto o amor amofinava-se nas bibliotecas, ele botou o bloco na rua, subiu no trio elétrico e fez a festa. Desesperado, o amor saltou dos livros e gritou:
_Eu também quero entrar na dança.
Eis que o sexo reparou sua armadura com um olhar iâmbico e berrou:
_Aqui só dança quem tira a roupa.
Então o amor fitou seu próprio corpo, olhou com sinceridade para suas rugas, notou que já estava anacrônico, enfim percebeu que nesse mundo não há mais lugar para quem usa roupas. Tocado pela tristeza dos dias brancos, o amor entrou em uma depressão profunda. Foi ficando cada vez mais moribundo, até que se desamorizou e saiu de cena.
Hoje o amor é coisa encantada, causo que de tanto ser contado virou lenda, história antiga escrita à dura pena.


Edilberto Vilanova
.

Domingo

Passadas as feiras
Feitas as compras
Aumentadas as contas
Mingo do domingo
As chagas maculadas pelo sábado
Concebido pelo pecado
Adormecido
Consumo goles de ociosidade
Concedidos em face
De vontades minguadas.

Edilberto Vilanova

quinta-feira, 25 de março de 2010

Sede

Ainda deságuo quando você demora
a descansar seu coração selvagem
Em meu peito
Pois sei que teu cais
É qualquer porto
Qualquer poço
mas você sempre volta
e não tem jeito mesmo
minha sede cede a qualquer encanto teu
tenho a sede dos oceanos
você é minha sede
sede minha represa
sou mulher oceano
e nem a tempestade sacia minha sede
pois quem chove sou eu
a tempestade sou eu
vem cedo navegar em meu pano
deixa teu navio-coração
descansar no peito meu.

Edilberto Vilanova

quarta-feira, 30 de dezembro de 2009

Natal branco

As crianças espreitaram a fúria do mundo
E mudas caíram no viaduto
Vingou o fruto pedregulho da sina,
A assassina de luas minguantes,
A nudez da voz, estampidos dentro da noite,
Malabarismo no farol, o olho torpe do consumismo,
O riso ensanguentado e o escárnio.
O segrêdo dos lábios, o beijo branco
No confronto de cores
De um dia pálido
E entrecortadas, palavras ávidas.
A desesperada réstia de esperança
E apenas um embrulho
Para celebrar a magnitude da vida.

Edilberto Vilanova

terça-feira, 17 de novembro de 2009

Maria

à minha avó
Maria Ferreira
Estrada de ferro trilhada pelo pão de cada dia
Mirá-la-ía no fitar do meu riso
E a sentinela inquilina de minha horas
Ganharia asas de aves-marias
Abrandar-me-ia com a cantilena de tuas ladainhas
Rogaria romarias, ó Maria
Tende piedade de mim
Rogai por mim, nossa senhora da bondade
A boa idade dança na folha da Malva-do-reino
Dai-me um chá de capim santo
Me ensine a caminhar no teu rosário
A tecer teu terço, santa lenda
Carmelita, lajedo sem fenda
Não vigiou teu penar
Nem choveu com teu hino(voar)
Mas tua adoção germinou Marcos e Helena
E um orfanato de rebentos embalados pela mesma mão
Aquecidos pelo mesmo algodão
Agora homens que perdem noites
Tragando tuas palavras de renda
A tecer a manhã de birros
Em tua almofada de alfazema
Olê, mulher rendeira
Que me ensinou a andar
Me ensina a fazer renda
Que aprendo a navegar.

Edilberto Vilanova

Solar das doze janelas

Entre a aurora e o crepúsculo
A catedral e a capela:
Um solar
Doze janelas
Doze símbolos de castidade
Doze donzelas
A luz que se escurece
Entre as pernas
Se derrama pelos telhados barrocos
Herdados de Portugal
Ao ranger das portas
Os lençóis guardam o segredo mais roto
As camisolas bailam nas alcôvas
E guardam o negrume de doze sexos
A casca casta do amor
Intacto, impenetrável, inviolável.
Assim se faz a lenda
Onde a pedra da memória se abre em fenda
Em carne viva história:
Doze janelas, doze símbolos do tempo
Os fantasmas passeiam pela praça da vitória
Os cães velam o sono dos homens
O vento acoita as árvores
E lá na casa esperança
Os lobos espreitam pelas frestas
O repouso das doze virgens
Doze cinderelas

Edilberto Vilanova

sexta-feira, 21 de agosto de 2009

A canção do espírito

A canção do espírito
Adormece o corpo como febre
Faz valsa o batimento cardíacos
Entorpece a vida
E derrama gotas de delírio pela terra

Ah!Como soam bem esses novos acordes
Acorde!
Repare nas cores transversais que desabam do céu
E se envenene com mel
Porque ainda há abelhas fecundando flores
E a pedra sempre pó
Traz de pouco a pouco a flor do sono
A eternidade é deserta e o corpo desbota

E como cai bem no desalinhar do corpo
Essas novas roupas
Ah!Como são sinceros nossos garotos
Como são modernas nossas moças
Amanhã ou depois virão outros
E tudo será memória
Em outros corpos os mesmo fantasmas
E a canção do espírito tocará
E vai haver dor e lágrima, mas
No fim, em casas subterrâneas
Ficaram tons neutros e resíduos de vozes
E será só canção para todas as almas atrozes

Edilberto Vilanova

quinta-feira, 6 de agosto de 2009

Metafísica

Quando os sapos se encolhem
Os homens coaxam
Montam em seus cavalos metálicos
Remontam suas máquinas
Despertam cheos de fomes, de sedes, vontades
Cavalgam pelo campo, pela cidade
Se embaraçam
Se atropelam
Se despedaçam
Se apaixonam
E se embriagam
Comem, se fartam de cansaço
Rezam, dormem, sonham
Mas os sonhos moram em casas encantadas
Trancadas a sete chaves

É preciso quebrar as portas dos sonhos

Os homens escrevem palavras na água
E na água só sabem ler os peixes, os sapos

Quando os homens se encolhem
Os sapos coaxam

Edilberto Vilanova

segunda-feira, 3 de agosto de 2009

Banditismo

Há alguém a bater à porta
Será a vida ou será a morte?
Alguém a bater à porta
A vida ou a morte?
À porta
A vida ou a morte
Porta
Vida
Morte
À porta
A vida ou a morte
A vida ou a morte?
Morte

Edilberto Vilanova

O galo

O sertanejo bateu as asas
E foi para São Paulo
Eis que levou consigo um galo
E um cabrito enfeitado
Antes do entardecer
O sertanejo brigava com o diabo
Foi quando Deus apareceu
Num trem hidráulico
E disse: paz para um homem cansado!
Eis que quando o trem passou
O galo cantou
E os homens acordaram para o trabalho
E antes do anoitecer
O galo voltou a cantar
E bateu as asas
E o sertanejo voltou pra casa.

Edilberto Vilanova