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segunda-feira, 4 de junho de 2012

Marcas

Uma imagem sinuosa, meio torta
no espelho côncavo das claras águas,
personificação das nossas mágoas
frente a ela, essa alegria não suporta

Em que mundo de luz é que desaguas?
há alguma esperança à tua porta?
São cicatrizes ou rugas? (Que importa?)
- É o movimento sísmico das águas

Não foste criatura de beleza
ainda mais que tu foste abatido
pelo dilúvio austero da aspereza...

E mesmo ante as agruras, comovido,
eu ainda contemplo com surpresa
Meu semblante nas águas refletido.

Rogério Freitas

terça-feira, 24 de janeiro de 2012

Lívre arbítrio

misterioso é o ser e não transmuta
sempre irial ou sempre iracundo
carrega dentro de si, no "eu" profundo
essa carga imutável e absoluta

e sua vontade é dissoluta!
mas as escolhas perante este mundo
sequer o distanciam um segundo
da inexorável e real conduta

sempre aprisionado a seus anseios
o homem, não importa quais os meios
busca seus sonhos como em labirinto

e o ser, que se acredita ter mudado
apenas teve seu sonho saciado
ou conteve à força seu instinto

Rogério Freitas

sábado, 5 de junho de 2010

Soneto de Fundo de Quintal

Namorar as paisagens mais que belas,
Ouvir da natureza seu gemido;
O lavrador suado, em alarido,
Arriscando as toadas mais singelas.

Absorver todo o eflúvio das estrelas
Sobre as rosas ou no ar amanhecido,
Admirar mesmo o vento desabrido
A bater incessante nas janelas.

Abraçar os alísios à tardinha,
Quando o sol se debruça e dá à vinha
E ao horizonte calmo a cor mel,

Depois no ateliê em alto adro
Misturar tudo, sorrir; eis o quadro
Pintado com palavras no papel.


Rogério Freitas

Inocência

Lá estão eles, ambos garotinhos,
Ele segura a bola, ela a boneca
Sorridente o garoto e mais sapeca
Chega-se a ela, confessa segredinhos.

Ela sorri, mostrando seus dentinhos,
De lado deixa um pouco a tal boneca,
Lhe faz um gesto. Ele ri, não se peca
Quando a intenção é receber carinhos.

Se lá chega outro ou outra com carência
De lhes falar; não, não se vê furor,
Nas faces só a mesma complacência.

A sós de novo, volta o mesmo alvor,
Aquela doce ingênua confidência...
Só mesmo na inocência existe amor.

Rogério Freitas

quarta-feira, 28 de janeiro de 2009

A formiga e a cigarra

E cantou todo o verão a cigarra,
Por isso viu o inverno de fadiga
Chegar sem nada ter; com a fome esbarra
E vai pedir uma ajuda à formiga.

Mas, esta, da vadiagem inimiga,
Associou sua vizinha à farra;
Negou a ajuda e fez pouco da amiga
Com uma sutil pitada de algazarra;

À cigarra mostrou toda a riqueza
Que ela só construíra com suor
E se exaltava a dizer: - Que beleza!

Mas disse a cigarra longe de otário* -
O fruto da lida só tem valor
Quando o seu dono é um pouco solidário! ·

*Concordância correta é otária.

Rogério Freitas

domingo, 23 de novembro de 2008

Nostalgia de um velho

Recordo meus amigos de criançola...
Ah! Foram tantos! E na minha rua,
Naquelas tardes de brisa tão nua,
Os gudes no “pezin” de castanhola.

Dividíamos nós felicidade,
Tristeza, decepções, sonhos de infância,
Segredos, as primeiras esperanças,
E os primeiros sinais da puberdade.

Mas depois, esta senda foi ficando
No olvido da mudança, para trás;
Muito célere o tempo foi passando...

Só, trilho hoje e estrada com meus ais;
E às vezes digo a mim mesmo chorando:
-“Não seremos aquilo nunca mais!”

Rogério Freitas

sábado, 25 de outubro de 2008

Falando a Dora

Para sempre não há, Dora, ventura
Que dure. Ser feliz e um breve instante.
O mundo algoz tão ríspido, inconstante,
Converte todo bem em amargura.

Lamenta sim a grande desventura
Que vira! Não te iluda a radiante
Fortuna que da a qualquer semblante
O sorriso do gozo e da fartura.

Eu também, neste rosto, carreguei
Esse riso – também me debrucei
No fausto da fortuna que me dizes...

Mas, toda a luz que eu tinha se apagou
E veio o eterno mal; só me ficou
A saudade dos dias mais felizes.

Rogério Freitas

sexta-feira, 26 de setembro de 2008

Grande bem

Veio a morte, mas inda sou contigo;
foste, nos ventos bravos desses mares,
Nada mais, ó meu bem, que o lenho amigo:
A salvação sublime dos pesares.

Bastava teu olhar (eu já o sigo!)
Necessário não era tu falares,
Pois no seu brilho tinha eu paz e abrigo;
Sequer busquei o cristo dos altares.

Quando entrastes no céu, os bons pastores
Indagaram-te o que de bom fizeste
E sobre tua vida e teus valores...

E falastes no imenso azul celeste,
Pra não perder a porta dos louvores
Do grande bem do amor que tu me deste.

Rogério Freitas