Ainda bem que ela volta
Com seus sortilégios
Com sua astúcia
Brinca em meu peito
Devolve meu riso
E minha angústia
Traçar cada linha
É o nosso objetivo
E como recompensa
Ganhamos apenas satisfação
Os contratempos vêm
As dificuldades vêm
Mas tudo isso
Encaramos juntos
Cada um cúmplice do outro
Quando ela vai
Não sei se demora a voltar
Só tenho certeza
De que voltará
Porque o que fazemos
É também vida
E a vida um poema sem fim
Rogério Freitas
quinta-feira, 2 de fevereiro de 2012
quinta-feira, 26 de janeiro de 2012
Retrato de um poeta bissexto
traço minha rota torta
feito a linha que comporta
a letra de um deus
bisexto de verso e aniversário
prematuro, libertário
poeta e ateu
ora bato a asa
ora bato à porta
minha carne mal suporta
esse anseio meu
nessa ânsia que me cabe
de abarcar o mundo
antes que mundo me abarque
e se acabe
antes que mundo me abarque
e acabe
embalando-me em meu próprio berço
embolando-me em meu próprio passo
recolhendo-me no vasto universo meu
Vivaldo Simão
feito a linha que comporta
a letra de um deus
bisexto de verso e aniversário
prematuro, libertário
poeta e ateu
ora bato a asa
ora bato à porta
minha carne mal suporta
esse anseio meu
nessa ânsia que me cabe
de abarcar o mundo
antes que mundo me abarque
e se acabe
antes que mundo me abarque
e acabe
embalando-me em meu próprio berço
embolando-me em meu próprio passo
recolhendo-me no vasto universo meu
Vivaldo Simão
Marcadores:
retrato de um poeta bisexto,
Vivaldo Simão
Maravilha de sal
O mar é maravilha
é maré cheia de acalanto
é água benta de quebrar quebranto
é canto bom que entoa a voz dos vento
quando transborda e nos encharca
de brisa e maresia
e outras alegrias
carentes do cais
que lhes somos nós
o mar é esconderijo turvo
de benções e perigos
pois ai de nós
Se o mar nos traga
mas se o mar nos trás
ruminadas coisas de sal
que sejam o nosso sustento
ou alguma brisa que nos beije
que nos seja alento
num ocaso qualquer
o mar será maravilha
Maré cheia de tudo que brilha
longe dos olhos de quem vive
aquém da barra da saia do mar
Vivaldo Simão
é maré cheia de acalanto
é água benta de quebrar quebranto
é canto bom que entoa a voz dos vento
quando transborda e nos encharca
de brisa e maresia
e outras alegrias
carentes do cais
que lhes somos nós
o mar é esconderijo turvo
de benções e perigos
pois ai de nós
Se o mar nos traga
mas se o mar nos trás
ruminadas coisas de sal
que sejam o nosso sustento
ou alguma brisa que nos beije
que nos seja alento
num ocaso qualquer
o mar será maravilha
Maré cheia de tudo que brilha
longe dos olhos de quem vive
aquém da barra da saia do mar
Vivaldo Simão
Estatística
todos fazem parte dela
o gari, o pedreiro, o carpinteiro
o vigia...
menos seu Zé
homem do sertão, solitário,
que mora em uma choupana
desconhecida pelo IBGE
ele labuta arduamente
pra comer, pra beber, pra se vestir
e tudo com honestidade
é uma pepita de ouro
em meio a um deserto
ele canta
entoa suas canções alta noite
conte (olha) estrelas e sonha
cada um aprende a ser feliz
lá à sua maneira
como também aprende a não culpar
os outros pelas suas tristezas
e seu Zé é assim
contente com seu destino
não sabe ao menos
quem é o presidente
e não faz mal
o presidente também
não sabe quem é ele
Rogério Freitas
o gari, o pedreiro, o carpinteiro
o vigia...
menos seu Zé
homem do sertão, solitário,
que mora em uma choupana
desconhecida pelo IBGE
ele labuta arduamente
pra comer, pra beber, pra se vestir
e tudo com honestidade
é uma pepita de ouro
em meio a um deserto
ele canta
entoa suas canções alta noite
conte (olha) estrelas e sonha
cada um aprende a ser feliz
lá à sua maneira
como também aprende a não culpar
os outros pelas suas tristezas
e seu Zé é assim
contente com seu destino
não sabe ao menos
quem é o presidente
e não faz mal
o presidente também
não sabe quem é ele
Rogério Freitas
Namoro de astros
A gravidade do amor
paira sob o lençol celestial
duas luminárias seculares
velam as noites
Um cavaleiro cavalga na pele crua da lua
no seu cavalo branco
de espada em punho
São Jorge, devorador de dragões
Vestido de luz
nosso romance flutua:
você Vênus
baila entre as galáxias, nua
Iluminados pelo sol
seguimos lado a lado
passeando pelas eras
você Dalva, eu lua
Edilberto Vilanova
paira sob o lençol celestial
duas luminárias seculares
velam as noites
Um cavaleiro cavalga na pele crua da lua
no seu cavalo branco
de espada em punho
São Jorge, devorador de dragões
Vestido de luz
nosso romance flutua:
você Vênus
baila entre as galáxias, nua
Iluminados pelo sol
seguimos lado a lado
passeando pelas eras
você Dalva, eu lua
Edilberto Vilanova
terça-feira, 24 de janeiro de 2012
Reza velha
Nosso amor
desprotegido pelos santos
sem colar benzido no pescoço
quebrou o encanto
e não tem reza
que cure esse quebranto
Edilberto Vilanova
desprotegido pelos santos
sem colar benzido no pescoço
quebrou o encanto
e não tem reza
que cure esse quebranto
Edilberto Vilanova
Lívre arbítrio
misterioso é o ser e não transmuta
sempre irial ou sempre iracundo
carrega dentro de si, no "eu" profundo
essa carga imutável e absoluta
e sua vontade é dissoluta!
mas as escolhas perante este mundo
sequer o distanciam um segundo
da inexorável e real conduta
sempre aprisionado a seus anseios
o homem, não importa quais os meios
busca seus sonhos como em labirinto
e o ser, que se acredita ter mudado
apenas teve seu sonho saciado
ou conteve à força seu instinto
Rogério Freitas
sempre irial ou sempre iracundo
carrega dentro de si, no "eu" profundo
essa carga imutável e absoluta
e sua vontade é dissoluta!
mas as escolhas perante este mundo
sequer o distanciam um segundo
da inexorável e real conduta
sempre aprisionado a seus anseios
o homem, não importa quais os meios
busca seus sonhos como em labirinto
e o ser, que se acredita ter mudado
apenas teve seu sonho saciado
ou conteve à força seu instinto
Rogério Freitas
Marcadores:
agnostico,
lívre arbítrio,
Rogério Freitas,
soneto
A sua presença moça
A sua presença moça
interna em mim
é coisa que não se cansa
não cessa
feito a volta das horas em torno dos dias
e como o mar a ruminar o sal
e o céu aos sois e luas
assim sucede essa presença sua
que tanto translada quanto rota
em volta do amor que mora
em mim
e ainda que longe você mesma
esteja
da moça que eu vejo
quando olho a criatura
inquilina do meu desejo
que uma vez tendo em mim
abrigo interno
nunca dei despejo
vejo moça ainda
e quanto mais ausente, moça
mais sua presença
nunca finda
Vivaldo Simão
interna em mim
é coisa que não se cansa
não cessa
feito a volta das horas em torno dos dias
e como o mar a ruminar o sal
e o céu aos sois e luas
assim sucede essa presença sua
que tanto translada quanto rota
em volta do amor que mora
em mim
e ainda que longe você mesma
esteja
da moça que eu vejo
quando olho a criatura
inquilina do meu desejo
que uma vez tendo em mim
abrigo interno
nunca dei despejo
vejo moça ainda
e quanto mais ausente, moça
mais sua presença
nunca finda
Vivaldo Simão
terça-feira, 12 de abril de 2011
Solitude II
No pequeno porto
A barca só
Na pequena aldeia
Abarca só
Seus sonhos o pescador
Rogério Freitas
A barca só
Na pequena aldeia
Abarca só
Seus sonhos o pescador
Rogério Freitas
sexta-feira, 1 de abril de 2011
Despertador
Ao despertar da dor
a exatidão do tempo rompe em silêncio
em rascunhos e fagulhas
De novo o alvorecer do sonho retirante
a abrir feridas
o corpo se desfibra e arde novamente
o sol recorta as víceras
e espelha pelos escombros de qualquer mercado
flores e lástimas cobertas de vítimas
Não mais vozes do silêncio
agora mapas do acaso
não mais amores vãos
agora resquícios de orgasmos
nada mais de escuro
Agora louvores
Cores e atores
Abram as cortinas para o teatro corrosivo do dia
repleto de dramas
recomeça mais um grande ato
amargo e mágico de viveres.
Edilberto Vilanova
a exatidão do tempo rompe em silêncio
em rascunhos e fagulhas
De novo o alvorecer do sonho retirante
a abrir feridas
o corpo se desfibra e arde novamente
o sol recorta as víceras
e espelha pelos escombros de qualquer mercado
flores e lástimas cobertas de vítimas
Não mais vozes do silêncio
agora mapas do acaso
não mais amores vãos
agora resquícios de orgasmos
nada mais de escuro
Agora louvores
Cores e atores
Abram as cortinas para o teatro corrosivo do dia
repleto de dramas
recomeça mais um grande ato
amargo e mágico de viveres.
Edilberto Vilanova
segunda-feira, 28 de março de 2011
(sem título)
Dava pra fazer um monumento de mármore à paz, em Lower Manhattan
Com a frieza branca que transborda do peito desses homens
Dava pra reerguer Hiroximas e Nagazakis
Com a força bruta que brota dos braços desses homens
Quando agridem e ferem,
Nas ruas, nos bares, nas lutas, nos lares
Com o fogo que arde nesses homens, derreter-se-iam grilhões e grades
E todo o gelo dessa era glacial dentro de nós
Dava pra construir centenas de milhares de cidades
Nos quilômetros baldios dentro desses homens
Neles abrigar-se-iam meninas chinesas largadas nas ruas
Legadas à morte por inanição
Caberiam os gêmeos, os fisicamente imperfeito, os débeis mentais,
Culturalmente enterrados vivos nas tribos indígenas da América
Caberiam os mendigos e os meninos senis esquecidos
Pela maquinaria construtora da ordem e progresso mundial
Caberiam serenos asilos, com jogos nas calçadas, café com prosa e sorrisos
Caberiam escolas e escolhas que aqui fora já não cabem
Quantas flores e frutos teriam comportado
O espaço improfícuo dos Campos de Auschwitz?
Quanto sangue derramado nos campos de batalha, nas chacinas diárias
Enquanto filas infinitas estendem-se nos bancos de sangue.
Com as mãos que atiram pedras sobre o véu que cobre o corpo
Das mulheres do oriente
Cavar-se-ia a terra, arrancar-se-ia novas fontes
Em cujas águas matariam a sede os sertões
E converter-se-iam Saaras em searas
Vivaldo Simão
Com a frieza branca que transborda do peito desses homens
Dava pra reerguer Hiroximas e Nagazakis
Com a força bruta que brota dos braços desses homens
Quando agridem e ferem,
Nas ruas, nos bares, nas lutas, nos lares
Com o fogo que arde nesses homens, derreter-se-iam grilhões e grades
E todo o gelo dessa era glacial dentro de nós
Dava pra construir centenas de milhares de cidades
Nos quilômetros baldios dentro desses homens
Neles abrigar-se-iam meninas chinesas largadas nas ruas
Legadas à morte por inanição
Caberiam os gêmeos, os fisicamente imperfeito, os débeis mentais,
Culturalmente enterrados vivos nas tribos indígenas da América
Caberiam os mendigos e os meninos senis esquecidos
Pela maquinaria construtora da ordem e progresso mundial
Caberiam serenos asilos, com jogos nas calçadas, café com prosa e sorrisos
Caberiam escolas e escolhas que aqui fora já não cabem
Quantas flores e frutos teriam comportado
O espaço improfícuo dos Campos de Auschwitz?
Quanto sangue derramado nos campos de batalha, nas chacinas diárias
Enquanto filas infinitas estendem-se nos bancos de sangue.
Com as mãos que atiram pedras sobre o véu que cobre o corpo
Das mulheres do oriente
Cavar-se-ia a terra, arrancar-se-ia novas fontes
Em cujas águas matariam a sede os sertões
E converter-se-iam Saaras em searas
Vivaldo Simão
Os olhos do tempo
Tudo se dissolve nos olhos do tempo
Os feixes de palavras
As tranças das sandálias
As catástrofes diárias
Tudo se dissolve nos olhos do tempo
Os instantes de cansaço
Os corpos decepados
Os crimes indecifrados
Os acontecimentos, as rosas abortadas
Os edifícios, os rumos das estradas
Os jornais, as revelações
Tua glória e teu declínio
Teu riso e tua lágrima
O que foi profetizado
O que foi ofertado
O que virou vapor e o que se solidificou
Os amores presentes e passados
O que ganhou forma e o que ficou abstrato
Teu perdão e tua mágoa.
Tudo se esmaga nos olhos do tempo.
Edilberto Vilanova
Os feixes de palavras
As tranças das sandálias
As catástrofes diárias
Tudo se dissolve nos olhos do tempo
Os instantes de cansaço
Os corpos decepados
Os crimes indecifrados
Os acontecimentos, as rosas abortadas
Os edifícios, os rumos das estradas
Os jornais, as revelações
Tua glória e teu declínio
Teu riso e tua lágrima
O que foi profetizado
O que foi ofertado
O que virou vapor e o que se solidificou
Os amores presentes e passados
O que ganhou forma e o que ficou abstrato
Teu perdão e tua mágoa.
Tudo se esmaga nos olhos do tempo.
Edilberto Vilanova
Por seus olhos
Apenas vi um olhar reluzente
A iluminar meu coração impuro
E, nessa hora, a esperança de um futuro
Vigorou no meu peito novamente.
Apenas vi um olhar reluzente
Que me falando co ardor de amor puro
Resgatou coa bondade do escuro
A triste alma deum corpo decadente.
Apenas vi um olhar reluzente
Cujo brilho singelo, em minha mão,
Deixou a cura para um ser doente.
E depois desse bom primeiro passo,
Eu finalmente corri para o abraço
Da vida, da paz, da libertação.
Rogério Freitas
A iluminar meu coração impuro
E, nessa hora, a esperança de um futuro
Vigorou no meu peito novamente.
Apenas vi um olhar reluzente
Que me falando co ardor de amor puro
Resgatou coa bondade do escuro
A triste alma deum corpo decadente.
Apenas vi um olhar reluzente
Cujo brilho singelo, em minha mão,
Deixou a cura para um ser doente.
E depois desse bom primeiro passo,
Eu finalmente corri para o abraço
Da vida, da paz, da libertação.
Rogério Freitas
A Besta pop
Do além-mar da midiocracia
Emerge a grande besta pop e se anuncia,
Mistificada, à multidão
Histericamente mesmerizada
Historicamente mesmificada
E beija-se, e curva-se, e baba-se os pés
Da grande besta pop
Mãe amada
Dos esboços de astros
Dos projetos de deuses com fomes de flashes
Vampiros sedentos
Retratos de tempos de porca miséria emocional
Mas outros astros, tão mais nobres
E muito mais loucos
Pairam muito além desse mar
E aprendem a beijar a pele do céu
Vivaldo Simão
Emerge a grande besta pop e se anuncia,
Mistificada, à multidão
Histericamente mesmerizada
Historicamente mesmificada
E beija-se, e curva-se, e baba-se os pés
Da grande besta pop
Mãe amada
Dos esboços de astros
Dos projetos de deuses com fomes de flashes
Vampiros sedentos
Retratos de tempos de porca miséria emocional
Mas outros astros, tão mais nobres
E muito mais loucos
Pairam muito além desse mar
E aprendem a beijar a pele do céu
Vivaldo Simão
Poema de reconciliação (aos meus pais)
O beijo se refez.
As bocas fechadas e mudas
Entreabriram-se de súbito
No fim do estio
Um relâmpago
Cortou o silêncio das nuvens
E das veias de chuvas
Esvaiu-se a sangria dos açudes
Encorpados
Os lábios de nuvens se tocaram
Fizeram trovoadas
Abrindo um tempo de fartura
A transubstanciação da vida
Recompôs-se na rota das abelhas
No aguaceiro dos riachos
Na pele mordida das mangas
Na sabor rosamarelo das goiabas
No ciclo do beija-flor
No mormaço da tarde
“Quebrado o gelo do riso”
O silêncio quebrado
Quebrado o tempo mal vivido
A agulha pontua novamente
O alinhamento das costuras
E tece agasalhos para o inverno
A coruja agourenta
Que cantava: nunca mais nunca mais
Na árvore do terreiro
Voo pras lonjuras
Onde pousou a zabelê
Cantando as chamas de novas manhãs.
Edilberto Vilanova
As bocas fechadas e mudas
Entreabriram-se de súbito
No fim do estio
Um relâmpago
Cortou o silêncio das nuvens
E das veias de chuvas
Esvaiu-se a sangria dos açudes
Encorpados
Os lábios de nuvens se tocaram
Fizeram trovoadas
Abrindo um tempo de fartura
A transubstanciação da vida
Recompôs-se na rota das abelhas
No aguaceiro dos riachos
Na pele mordida das mangas
Na sabor rosamarelo das goiabas
No ciclo do beija-flor
No mormaço da tarde
“Quebrado o gelo do riso”
O silêncio quebrado
Quebrado o tempo mal vivido
A agulha pontua novamente
O alinhamento das costuras
E tece agasalhos para o inverno
A coruja agourenta
Que cantava: nunca mais nunca mais
Na árvore do terreiro
Voo pras lonjuras
Onde pousou a zabelê
Cantando as chamas de novas manhãs.
Edilberto Vilanova
Quando Ela Passa
Quando ela passa,
Com seus passinhos sutis,
A rua se enche de graça,
Trabalha o povo feliz.
Quando ela passa,
Toda a nossa rua sonha,
E o homem casado disfarça
Que já perdeu a vergonha.
Quando ela passa,
O adolescente matreiro
Olha seu corpo de raça,
Vai se trancar no banheiro.
Quando ela passa
Em frente do bar da esquina,
Seu Zé dá pinga de graça,
Só por causa da menina.
Quando ela passa
No açougue do seu Lisboa,
Grita ele com muita raça:
- Já chegou a carne boa!
Quando ela passa
No mercado do Clemente,
A freguesia escassa
Se transforma em muita gente.
Quando ela passa
No lanche do seu Joel,
Ele descuida da massa,
Mas sai bem feito o pastel.
Mas quando ela não passa
- Que tristeza nos rodeia!-
Tudo na rua se embaça,
Toda a gente fica feia!
Rogério Freitas
Com seus passinhos sutis,
A rua se enche de graça,
Trabalha o povo feliz.
Quando ela passa,
Toda a nossa rua sonha,
E o homem casado disfarça
Que já perdeu a vergonha.
Quando ela passa,
O adolescente matreiro
Olha seu corpo de raça,
Vai se trancar no banheiro.
Quando ela passa
Em frente do bar da esquina,
Seu Zé dá pinga de graça,
Só por causa da menina.
Quando ela passa
No açougue do seu Lisboa,
Grita ele com muita raça:
- Já chegou a carne boa!
Quando ela passa
No mercado do Clemente,
A freguesia escassa
Se transforma em muita gente.
Quando ela passa
No lanche do seu Joel,
Ele descuida da massa,
Mas sai bem feito o pastel.
Mas quando ela não passa
- Que tristeza nos rodeia!-
Tudo na rua se embaça,
Toda a gente fica feia!
Rogério Freitas
terça-feira, 15 de março de 2011
CINEMA MUDO
Nas horas habitadas por nós
só o silêncio nos povoa
tudo em nós perde a voz
nossos gestos mudos
nossas palavras surdas
nossas vidas caladas
caladas nossas vontades
nossas formas incompletas
partindo em retirada
no espaço ermo do nosso mundo, desmoronado
nossos corpos desabitados
nossos instantes de consumo
consumindo-nos
no calor das horas habitadas por nós
E no filme que nos revela
imagens fragmentadas
do amor que ainda fingimos fazer morada
em nossas ruínas.
Edilberto Vilanova
só o silêncio nos povoa
tudo em nós perde a voz
nossos gestos mudos
nossas palavras surdas
nossas vidas caladas
caladas nossas vontades
nossas formas incompletas
partindo em retirada
no espaço ermo do nosso mundo, desmoronado
nossos corpos desabitados
nossos instantes de consumo
consumindo-nos
no calor das horas habitadas por nós
E no filme que nos revela
imagens fragmentadas
do amor que ainda fingimos fazer morada
em nossas ruínas.
Edilberto Vilanova
quinta-feira, 3 de fevereiro de 2011
Poema da amiga ausente
A imagem da imensa ausência tua
Me acompanha na viagem
Levo de volta, na bagagem, sólida saudade
Solidão que eu quis minguar
com teu abraço
Eu era a visita esperada
e esperei você
Como quem, insone, espera o dia
E minguei
Ali silente, em agonia
Doente pela ausência do signo de luz
Ao qual me conduz o teu nome.
Vivaldo Simão
Me acompanha na viagem
Levo de volta, na bagagem, sólida saudade
Solidão que eu quis minguar
com teu abraço
Eu era a visita esperada
e esperei você
Como quem, insone, espera o dia
E minguei
Ali silente, em agonia
Doente pela ausência do signo de luz
Ao qual me conduz o teu nome.
Vivaldo Simão
sábado, 9 de outubro de 2010
A louca
Não trazia nada nas mãos escalavradas
A não ser gestos inconfidentes
A não ser a calidez das estradas
Trazia grudado ao sapato:
sóis e sangue,
mangues, mares e sertões
trazia no corpo maculado
Vestido em farrapos
a escassez de gente
e sobre os ombros cansados
um alforje de bugigangas
sem serventia
Trazia grudados ao peito:
Medo e segredo
Dores, canseiras e solidões
Desconhecida de si
Achara-se nos caminhos da loucura
perdera o juízo
E nunca mais se julgara.
Edilberto Vilanova
A não ser gestos inconfidentes
A não ser a calidez das estradas
Trazia grudado ao sapato:
sóis e sangue,
mangues, mares e sertões
trazia no corpo maculado
Vestido em farrapos
a escassez de gente
e sobre os ombros cansados
um alforje de bugigangas
sem serventia
Trazia grudados ao peito:
Medo e segredo
Dores, canseiras e solidões
Desconhecida de si
Achara-se nos caminhos da loucura
perdera o juízo
E nunca mais se julgara.
Edilberto Vilanova
quinta-feira, 29 de julho de 2010
As pedras do novo tempo (Versos para um tempo de meninos fendidos)
A Drummond
Caro Carlos
No espaço secular que nos separa
Deu-se a antimágica,
Apoética semântica,
E deslapidaram-se as pedras do meu tempo
Tempo de palpáveis pedras despidas de abstração
Endurecidas pela feiura de um púbere século
De meninos emuralhados
Alimentando internos cães famintos
De dez em dez minutos
Que erigem, no espaço outrora peito, novas Hiroximas
Irradiando a cancerígena escassez de espírito
A rosa do meu povo fenece.
E a aridez de uma nova raça promove o auto-holocausto
Um estado novo de meninos encanecidos.
Ensandecidos.
Incandescidos.
Tempo gauche
Em que os homens entortam anjos
Vivaldo Simão
Caro Carlos
No espaço secular que nos separa
Deu-se a antimágica,
Apoética semântica,
E deslapidaram-se as pedras do meu tempo
Tempo de palpáveis pedras despidas de abstração
Endurecidas pela feiura de um púbere século
De meninos emuralhados
Alimentando internos cães famintos
De dez em dez minutos
Que erigem, no espaço outrora peito, novas Hiroximas
Irradiando a cancerígena escassez de espírito
A rosa do meu povo fenece.
E a aridez de uma nova raça promove o auto-holocausto
Um estado novo de meninos encanecidos.
Ensandecidos.
Incandescidos.
Tempo gauche
Em que os homens entortam anjos
Vivaldo Simão
Marcadores:
Carlos Drummond,
crack,
poema moderno,
Vivaldo Simão
sábado, 5 de junho de 2010
Soneto de Fundo de Quintal
Namorar as paisagens mais que belas,
Ouvir da natureza seu gemido;
O lavrador suado, em alarido,
Arriscando as toadas mais singelas.
Absorver todo o eflúvio das estrelas
Sobre as rosas ou no ar amanhecido,
Admirar mesmo o vento desabrido
A bater incessante nas janelas.
Abraçar os alísios à tardinha,
Quando o sol se debruça e dá à vinha
E ao horizonte calmo a cor mel,
Depois no ateliê em alto adro
Misturar tudo, sorrir; eis o quadro
Pintado com palavras no papel.
Rogério Freitas
Ouvir da natureza seu gemido;
O lavrador suado, em alarido,
Arriscando as toadas mais singelas.
Absorver todo o eflúvio das estrelas
Sobre as rosas ou no ar amanhecido,
Admirar mesmo o vento desabrido
A bater incessante nas janelas.
Abraçar os alísios à tardinha,
Quando o sol se debruça e dá à vinha
E ao horizonte calmo a cor mel,
Depois no ateliê em alto adro
Misturar tudo, sorrir; eis o quadro
Pintado com palavras no papel.
Rogério Freitas
Marcadores:
lavrador,
natureza,
Rogério Freitas,
soneto
Inocência
Lá estão eles, ambos garotinhos,
Ele segura a bola, ela a boneca
Sorridente o garoto e mais sapeca
Chega-se a ela, confessa segredinhos.
Ela sorri, mostrando seus dentinhos,
De lado deixa um pouco a tal boneca,
Lhe faz um gesto. Ele ri, não se peca
Quando a intenção é receber carinhos.
Se lá chega outro ou outra com carência
De lhes falar; não, não se vê furor,
Nas faces só a mesma complacência.
A sós de novo, volta o mesmo alvor,
Aquela doce ingênua confidência...
Só mesmo na inocência existe amor.
Rogério Freitas
Ele segura a bola, ela a boneca
Sorridente o garoto e mais sapeca
Chega-se a ela, confessa segredinhos.
Ela sorri, mostrando seus dentinhos,
De lado deixa um pouco a tal boneca,
Lhe faz um gesto. Ele ri, não se peca
Quando a intenção é receber carinhos.
Se lá chega outro ou outra com carência
De lhes falar; não, não se vê furor,
Nas faces só a mesma complacência.
A sós de novo, volta o mesmo alvor,
Aquela doce ingênua confidência...
Só mesmo na inocência existe amor.
Rogério Freitas
Marcadores:
inocência,
Oeiras,
Rogério Freitas,
soneto
Inscrição na pedra bruta
A chuva se armou
com trincheiras, foices e machados:
a todo vapor reuniu
um batalhão de soldados nas nuvens
que desceram pingo a pingo
alastraram-se em correnteza terra adentro
arrastaram casas e faces.
e depois de um árduo trabalho
escreveram na pedra bruta do morro velho:
erosão.
Edilberto Vilanova
com trincheiras, foices e machados:
a todo vapor reuniu
um batalhão de soldados nas nuvens
que desceram pingo a pingo
alastraram-se em correnteza terra adentro
arrastaram casas e faces.
e depois de um árduo trabalho
escreveram na pedra bruta do morro velho:
erosão.
Edilberto Vilanova
Prosa moderna
O sexo ativou os satélites do ID e não houve EGO nem SUPEREGO que invadisse seu sinal: ele pintou e bordou. Rompeu os bits da internet. Provocou orgasmos múltiplos na tela cibernética. E enquanto o amor amofinava-se nas bibliotecas, ele botou o bloco na rua, subiu no trio elétrico e fez a festa. Desesperado, o amor saltou dos livros e gritou:
_Eu também quero entrar na dança.
Eis que o sexo reparou sua armadura com um olhar iâmbico e berrou:
_Aqui só dança quem tira a roupa.
Então o amor fitou seu próprio corpo, olhou com sinceridade para suas rugas, notou que já estava anacrônico, enfim percebeu que nesse mundo não há mais lugar para quem usa roupas. Tocado pela tristeza dos dias brancos, o amor entrou em uma depressão profunda. Foi ficando cada vez mais moribundo, até que se desamorizou e saiu de cena.
Hoje o amor é coisa encantada, causo que de tanto ser contado virou lenda, história antiga escrita à dura pena.
Edilberto Vilanova.
_Eu também quero entrar na dança.
Eis que o sexo reparou sua armadura com um olhar iâmbico e berrou:
_Aqui só dança quem tira a roupa.
Então o amor fitou seu próprio corpo, olhou com sinceridade para suas rugas, notou que já estava anacrônico, enfim percebeu que nesse mundo não há mais lugar para quem usa roupas. Tocado pela tristeza dos dias brancos, o amor entrou em uma depressão profunda. Foi ficando cada vez mais moribundo, até que se desamorizou e saiu de cena.
Hoje o amor é coisa encantada, causo que de tanto ser contado virou lenda, história antiga escrita à dura pena.
Edilberto Vilanova.
Domingo
Passadas as feiras
Feitas as compras
Aumentadas as contas
Mingo do domingo
As chagas maculadas pelo sábado
Concebido pelo pecado
Adormecido
Consumo goles de ociosidade
Concedidos em face
De vontades minguadas.
Edilberto Vilanova
Feitas as compras
Aumentadas as contas
Mingo do domingo
As chagas maculadas pelo sábado
Concebido pelo pecado
Adormecido
Consumo goles de ociosidade
Concedidos em face
De vontades minguadas.
Edilberto Vilanova
De calças curtas
Um sujeito de calças curtas
É o menor dos humanos
Como quem anda descalçado
Na terra dos homens de sapato
Tem um q de imoral na pele da perna
Nos pelos, na derme
O cerne da questão
É que a questão é de ordem
Tem um "q" de caos
Em não ter o pano
Sobre a pele da perna
Como a cara das mulheres árabes
Como os ombros das indianas
Suspeito que minha pele esquálida
Transpire algo de sexo joelho abaixo
É o que me parece aos olhos dos senhores
Todos cheios de calças e poses
Nesta instituições
Chamadas de respeitosas.
Vivaldo Simão
É o menor dos humanos
Como quem anda descalçado
Na terra dos homens de sapato
Tem um q de imoral na pele da perna
Nos pelos, na derme
O cerne da questão
É que a questão é de ordem
Tem um "q" de caos
Em não ter o pano
Sobre a pele da perna
Como a cara das mulheres árabes
Como os ombros das indianas
Suspeito que minha pele esquálida
Transpire algo de sexo joelho abaixo
É o que me parece aos olhos dos senhores
Todos cheios de calças e poses
Nesta instituições
Chamadas de respeitosas.
Vivaldo Simão
Marcadores:
falsa moralidade,
poema humorístico,
Vivaldo Simão
quinta-feira, 25 de março de 2010
Sede
Ainda deságuo quando você demora
a descansar seu coração selvagem
Em meu peito
Pois sei que teu cais
É qualquer porto
Qualquer poço
mas você sempre volta
e não tem jeito mesmo
minha sede cede a qualquer encanto teu
tenho a sede dos oceanos
você é minha sede
sede minha represa
sou mulher oceano
e nem a tempestade sacia minha sede
pois quem chove sou eu
a tempestade sou eu
vem cedo navegar em meu pano
deixa teu navio-coração
descansar no peito meu.
Edilberto Vilanova
a descansar seu coração selvagem
Em meu peito
Pois sei que teu cais
É qualquer porto
Qualquer poço
mas você sempre volta
e não tem jeito mesmo
minha sede cede a qualquer encanto teu
tenho a sede dos oceanos
você é minha sede
sede minha represa
sou mulher oceano
e nem a tempestade sacia minha sede
pois quem chove sou eu
a tempestade sou eu
vem cedo navegar em meu pano
deixa teu navio-coração
descansar no peito meu.
Edilberto Vilanova
Solitude
Eis o que tenho feito:
Renunciei,
E alguém mais forte do que eu
Ocupou o meu lugar;
Eis o que tenho feito:
Hesitei,
E alguém com mais atitude
Chegou em minha frente;
Eis o que tenho feito:
Amei,
Mas na dúvida me calei
E acabei por ficar sozinho;
Eis o que tenho feito:
Desregrei-me,
E nesse isolamento frívolo
Perdi oportunidades;
Eis tudo o que tenho sido:
Renúncias, hesitações, dúvidas,
Desregramento.
Toda uma vida resumida
A uma mísera existência.
Rogério Freitas
Renunciei,
E alguém mais forte do que eu
Ocupou o meu lugar;
Eis o que tenho feito:
Hesitei,
E alguém com mais atitude
Chegou em minha frente;
Eis o que tenho feito:
Amei,
Mas na dúvida me calei
E acabei por ficar sozinho;
Eis o que tenho feito:
Desregrei-me,
E nesse isolamento frívolo
Perdi oportunidades;
Eis tudo o que tenho sido:
Renúncias, hesitações, dúvidas,
Desregramento.
Toda uma vida resumida
A uma mísera existência.
Rogério Freitas
segunda-feira, 22 de março de 2010
Transubstanciação
dedicado a Rejane Meyson, pela inspiração
Tomai a vida que codificoNas entrelinhas dos meus versos
Eis o meu corpo e o meu sangue
Vivaldo Simão
segunda-feira, 22 de fevereiro de 2010
Premonição
Te seguirei ciente e peregrino,
Eu bem sei: todo o esforço não é em vão;
Nos unirá corpo a corpo o destino,
Ou nos porá na mesma solidão
Rogério Freitas
Eu bem sei: todo o esforço não é em vão;
Nos unirá corpo a corpo o destino,
Ou nos porá na mesma solidão
Rogério Freitas
sábado, 2 de janeiro de 2010
JANELA 19
Partida. Eu encaro o quadro vivo. Que paisagens me esperam? Sou como o cão entretido a ver o giro do frango no forno do mercado: sabe lá porque, essa vida corrente ao revés fez babar e "abanar o rabo", salivante ante o objeto do desejo platônico, o elemento vida. Vontade de me apossar de tanta cor, tanta vivacidade, eu que no correr dos anos ando desbotando. A fome no meu peito não tem medida. É como fosse uma forma de amor.
Às vezes a vida corre menos ligeira: pontos de parada. Do lado de dentro eu olho o quadro e ela, senhorita vida, retribui o olhar, mas me olha com olhos de cega ( como quando alguém encara um ponto além de suas costas)... cega, e ainda muda, uma mudez chapliniana que me diz tanta dor e tanto riso.
Eu, do meu canto, me encanto: Como cabe a vida em tão poucos centímetros quadrados?
Olho a louca da rodoviária que vai e vem dizendo coisas que não sei ouvir além desse vidro. Talvez nem ela saiba ouvir também de lá, ao lado da própria voz. O mundo mesmo, às vezes, é cego e surdo aos loucos por puro fingimento ou covardia, quiçá medo da cota de loucura que nos cabe. Certo dia, um sujeito qualquer, objeto abjeto de si mesmo, inventou o conceito de normalidade pra fingir que gente é tudo igual. Bela verdade postiça pra quem goza a fantasia de segurança.
Um homem sentado lendo um jornal num tempo em que olhar o mundo impresso é pura perda de tempo mostra que mesmo esquálido, o passado passeia no presente, resiste, renitente.
Aromas de doce e delícias de sais saltam sobre a alguma janela entreaberta ao bel-prazer do meu olfato. Prazeres não duram, são passageiros como eu.
O som do motor.
E da janela a vida volta a correr ao revés: Re-partida.
Vivaldo Simão
Às vezes a vida corre menos ligeira: pontos de parada. Do lado de dentro eu olho o quadro e ela, senhorita vida, retribui o olhar, mas me olha com olhos de cega ( como quando alguém encara um ponto além de suas costas)... cega, e ainda muda, uma mudez chapliniana que me diz tanta dor e tanto riso.
Eu, do meu canto, me encanto: Como cabe a vida em tão poucos centímetros quadrados?
Olho a louca da rodoviária que vai e vem dizendo coisas que não sei ouvir além desse vidro. Talvez nem ela saiba ouvir também de lá, ao lado da própria voz. O mundo mesmo, às vezes, é cego e surdo aos loucos por puro fingimento ou covardia, quiçá medo da cota de loucura que nos cabe. Certo dia, um sujeito qualquer, objeto abjeto de si mesmo, inventou o conceito de normalidade pra fingir que gente é tudo igual. Bela verdade postiça pra quem goza a fantasia de segurança.
Um homem sentado lendo um jornal num tempo em que olhar o mundo impresso é pura perda de tempo mostra que mesmo esquálido, o passado passeia no presente, resiste, renitente.
Aromas de doce e delícias de sais saltam sobre a alguma janela entreaberta ao bel-prazer do meu olfato. Prazeres não duram, são passageiros como eu.
O som do motor.
E da janela a vida volta a correr ao revés: Re-partida.
Vivaldo Simão
quarta-feira, 30 de dezembro de 2009
Continente
E agora, que será do mar
Se todas as “Américas” jazem descobertas?
E eu, tendo sorvido o sumo dessa história minha e tua
Anoiteço descrente de encontrar
Novíssimos continentes
E reinvento teus países tropicais
Nos quais repousam meus marujos
Com olhos fartos de mar
E lábios e dentes e músculos e sexos
Cheios de sedes e fomes
De amar
Vivaldo Simão
Se todas as “Américas” jazem descobertas?
E eu, tendo sorvido o sumo dessa história minha e tua
Anoiteço descrente de encontrar
Novíssimos continentes
E reinvento teus países tropicais
Nos quais repousam meus marujos
Com olhos fartos de mar
E lábios e dentes e músculos e sexos
Cheios de sedes e fomes
De amar
Vivaldo Simão
Gira mundo
O dia vem vindo – contemplo daqui
O sol que dos montes me surge luzente
Mal surge tão rubro transforma o espaço
Um pássaro ao longe me canta dolente
O dia vem vindo da minha janela
E eu vejo o começo da vida agitada
Os homens dominam, os carros dominam
O meio da rua, também a calçada
A aragem amena se extingue com o sol
É grande o bulício; Já não mais contemplo
Os homens não lutam aqui pela vida
Somente desejam erguer o seu tempo
Esquecem com a pressa seus próprios irmãos
Nas mãos a ganância, só raiva e rancor
Com o mundo girando na busca incessante
Quem pode ao menos falar de amor?
Meu peito, que sofre dos males da vida
Espaço não acha no mundo egoísta
Valores que tenho me foram negados
Apenas os tenho pagando analista
Rogério Freitas
O sol que dos montes me surge luzente
Mal surge tão rubro transforma o espaço
Um pássaro ao longe me canta dolente
O dia vem vindo da minha janela
E eu vejo o começo da vida agitada
Os homens dominam, os carros dominam
O meio da rua, também a calçada
A aragem amena se extingue com o sol
É grande o bulício; Já não mais contemplo
Os homens não lutam aqui pela vida
Somente desejam erguer o seu tempo
Esquecem com a pressa seus próprios irmãos
Nas mãos a ganância, só raiva e rancor
Com o mundo girando na busca incessante
Quem pode ao menos falar de amor?
Meu peito, que sofre dos males da vida
Espaço não acha no mundo egoísta
Valores que tenho me foram negados
Apenas os tenho pagando analista
Rogério Freitas
Jeremias e Dália
* A um casal oeirense
Jeremias, o grande itinerante,
Pôs o seu caminhão na escura estrada;
E após beijar Dália, sua amada,
Em lágrimas partiu no seu possante.
Dália, bela mulher dissimulada,
Fez prece, mas sozinha riu no instante
Em que Jeremias, seu viajante
Sumiu na escuridão da madrugada.
Jeremias – pobre homem enganado!
Tendo a certeza de ser muito amado,
Seguia felicíssimo ao volante.
Dália, naquele instante de sarcasmo,
Previa já o mais gostoso orgasmo
No corpo varonil do seu amante.
Rogério Freitas
Natal branco
As crianças espreitaram a fúria do mundo
E mudas caíram no viaduto
Vingou o fruto pedregulho da sina,
A assassina de luas minguantes,
A nudez da voz, estampidos dentro da noite,
Malabarismo no farol, o olho torpe do consumismo,
O riso ensanguentado e o escárnio.
O segrêdo dos lábios, o beijo branco
No confronto de cores
De um dia pálido
E entrecortadas, palavras ávidas.
A desesperada réstia de esperança
E apenas um embrulho
Para celebrar a magnitude da vida.
Edilberto Vilanova
E mudas caíram no viaduto
Vingou o fruto pedregulho da sina,
A assassina de luas minguantes,
A nudez da voz, estampidos dentro da noite,
Malabarismo no farol, o olho torpe do consumismo,
O riso ensanguentado e o escárnio.
O segrêdo dos lábios, o beijo branco
No confronto de cores
De um dia pálido
E entrecortadas, palavras ávidas.
A desesperada réstia de esperança
E apenas um embrulho
Para celebrar a magnitude da vida.
Edilberto Vilanova
sexta-feira, 11 de dezembro de 2009
Três palavras
Três palavras
Para lavar
O ego
Três palavras
Para lavrar o céu
(da boca)
Três palavras
Para levar a vida
(às cegas)
Três palavras
Para livrar d mal
Da dúvida
Três palavras
Para louvar
A lânguida certeza
Que cabe como luva
Ao teatro dos amantes
Vivaldo Simão
Para lavar
O ego
Três palavras
Para lavrar o céu
(da boca)
Três palavras
Para levar a vida
(às cegas)
Três palavras
Para livrar d mal
Da dúvida
Três palavras
Para louvar
A lânguida certeza
Que cabe como luva
Ao teatro dos amantes
Vivaldo Simão
terça-feira, 17 de novembro de 2009
Maria
à minha avó
Maria FerreiraEstrada de ferro trilhada pelo pão de cada dia
Mirá-la-ía no fitar do meu riso
E a sentinela inquilina de minha horas
Ganharia asas de aves-marias
Abrandar-me-ia com a cantilena de tuas ladainhas
Rogaria romarias, ó Maria
Tende piedade de mim
Rogai por mim, nossa senhora da bondade
A boa idade dança na folha da Malva-do-reino
Dai-me um chá de capim santo
Me ensine a caminhar no teu rosário
A tecer teu terço, santa lenda
Carmelita, lajedo sem fenda
Não vigiou teu penar
Nem choveu com teu hino(voar)
Mas tua adoção germinou Marcos e Helena
E um orfanato de rebentos embalados pela mesma mão
Aquecidos pelo mesmo algodão
Agora homens que perdem noites
Tragando tuas palavras de renda
A tecer a manhã de birros
Em tua almofada de alfazema
Olê, mulher rendeira
Que me ensinou a andar
Me ensina a fazer renda
Que aprendo a navegar.
Edilberto Vilanova
Solar das doze janelas
Entre a aurora e o crepúsculo
A catedral e a capela:
Um solar
Doze janelas
Doze símbolos de castidade
Doze donzelas
A luz que se escurece
Entre as pernas
Se derrama pelos telhados barrocos
Herdados de Portugal
Ao ranger das portas
Os lençóis guardam o segredo mais roto
As camisolas bailam nas alcôvas
E guardam o negrume de doze sexos
A casca casta do amor
Intacto, impenetrável, inviolável.
Assim se faz a lenda
Onde a pedra da memória se abre em fenda
Em carne viva história:
Doze janelas, doze símbolos do tempo
Os fantasmas passeiam pela praça da vitória
Os cães velam o sono dos homens
O vento acoita as árvores
E lá na casa esperança
Os lobos espreitam pelas frestas
O repouso das doze virgens
Doze cinderelas
Edilberto Vilanova
A catedral e a capela:
Um solar
Doze janelas
Doze símbolos de castidade
Doze donzelas
A luz que se escurece
Entre as pernas
Se derrama pelos telhados barrocos
Herdados de Portugal
Ao ranger das portas
Os lençóis guardam o segredo mais roto
As camisolas bailam nas alcôvas
E guardam o negrume de doze sexos
A casca casta do amor
Intacto, impenetrável, inviolável.
Assim se faz a lenda
Onde a pedra da memória se abre em fenda
Em carne viva história:
Doze janelas, doze símbolos do tempo
Os fantasmas passeiam pela praça da vitória
Os cães velam o sono dos homens
O vento acoita as árvores
E lá na casa esperança
Os lobos espreitam pelas frestas
O repouso das doze virgens
Doze cinderelas
Edilberto Vilanova
domingo, 23 de agosto de 2009
Rosa dos ventos
Da noite o imenso véu cobriu o mundo
Findou-se o dia; Para uns temerário
Para outros da agonia o sudário
E tanto caos de amores oriundo
Hoje assim tão raso, ontem tão profundo
Risos alegres, dores do calvario
Caminho bom, péssimo intinerário
Do sagrado ao profano num segundo
A noite pouco a pouco se acentua...
Cobrindo o campo a palidez da lua
Nas ramagens um fremito, um açoite
E a humanidade toda amanhã
Seguirá de novo a rotina vã
Cobriu o mundo o imenso véu da noite.
Rogério Freitas
Findou-se o dia; Para uns temerário
Para outros da agonia o sudário
E tanto caos de amores oriundo
Hoje assim tão raso, ontem tão profundo
Risos alegres, dores do calvario
Caminho bom, péssimo intinerário
Do sagrado ao profano num segundo
A noite pouco a pouco se acentua...
Cobrindo o campo a palidez da lua
Nas ramagens um fremito, um açoite
E a humanidade toda amanhã
Seguirá de novo a rotina vã
Cobriu o mundo o imenso véu da noite.
Rogério Freitas
sexta-feira, 21 de agosto de 2009
Cantiga da menina sem endereço
Quem pintou o amor dessa menina
Com a cor da água?
Quem moldou com o barro da loucura
Sua forma?
Que lhe viu chorar borrando a maquiagem
No espelho?
Quem ouviu quedar a voz
Do seu segredo?
Seu destino, seu degredo
É migrar sem bando
Passarinho extraviado
Preso para sempre ao duro fado
De ser livre
Quem tocou à dança da serpente
No seu ventre?
E quem guardou sob os seus pelos
Seu desejo?
Quem subverteu seus fusos e apetites?
E escoltou sua rota
Na fuga de casa?
E quem traçou em branco
O seu sobrenome?
Vivaldo Simão
Com a cor da água?
Quem moldou com o barro da loucura
Sua forma?
Que lhe viu chorar borrando a maquiagem
No espelho?
Quem ouviu quedar a voz
Do seu segredo?
Seu destino, seu degredo
É migrar sem bando
Passarinho extraviado
Preso para sempre ao duro fado
De ser livre
Quem tocou à dança da serpente
No seu ventre?
E quem guardou sob os seus pelos
Seu desejo?
Quem subverteu seus fusos e apetites?
E escoltou sua rota
Na fuga de casa?
E quem traçou em branco
O seu sobrenome?
Vivaldo Simão
A canção do espírito
A canção do espírito
Adormece o corpo como febre
Faz valsa o batimento cardíacos
Entorpece a vida
E derrama gotas de delírio pela terra
Ah!Como soam bem esses novos acordes
Acorde!
Repare nas cores transversais que desabam do céu
E se envenene com mel
Porque ainda há abelhas fecundando flores
E a pedra sempre pó
Traz de pouco a pouco a flor do sono
A eternidade é deserta e o corpo desbota
E como cai bem no desalinhar do corpo
Essas novas roupas
Ah!Como são sinceros nossos garotos
Como são modernas nossas moças
Amanhã ou depois virão outros
E tudo será memória
Em outros corpos os mesmo fantasmas
E a canção do espírito tocará
E vai haver dor e lágrima, mas
No fim, em casas subterrâneas
Ficaram tons neutros e resíduos de vozes
E será só canção para todas as almas atrozes
Edilberto Vilanova
Adormece o corpo como febre
Faz valsa o batimento cardíacos
Entorpece a vida
E derrama gotas de delírio pela terra
Ah!Como soam bem esses novos acordes
Acorde!
Repare nas cores transversais que desabam do céu
E se envenene com mel
Porque ainda há abelhas fecundando flores
E a pedra sempre pó
Traz de pouco a pouco a flor do sono
A eternidade é deserta e o corpo desbota
E como cai bem no desalinhar do corpo
Essas novas roupas
Ah!Como são sinceros nossos garotos
Como são modernas nossas moças
Amanhã ou depois virão outros
E tudo será memória
Em outros corpos os mesmo fantasmas
E a canção do espírito tocará
E vai haver dor e lágrima, mas
No fim, em casas subterrâneas
Ficaram tons neutros e resíduos de vozes
E será só canção para todas as almas atrozes
Edilberto Vilanova
quinta-feira, 6 de agosto de 2009
Metafísica
Quando os sapos se encolhem
Os homens coaxam
Montam em seus cavalos metálicos
Remontam suas máquinas
Despertam cheos de fomes, de sedes, vontades
Cavalgam pelo campo, pela cidade
Se embaraçam
Se atropelam
Se despedaçam
Se apaixonam
E se embriagam
Comem, se fartam de cansaço
Rezam, dormem, sonham
Mas os sonhos moram em casas encantadas
Trancadas a sete chaves
É preciso quebrar as portas dos sonhos
Os homens escrevem palavras na água
E na água só sabem ler os peixes, os sapos
Quando os homens se encolhem
Os sapos coaxam
Edilberto Vilanova
Os homens coaxam
Montam em seus cavalos metálicos
Remontam suas máquinas
Despertam cheos de fomes, de sedes, vontades
Cavalgam pelo campo, pela cidade
Se embaraçam
Se atropelam
Se despedaçam
Se apaixonam
E se embriagam
Comem, se fartam de cansaço
Rezam, dormem, sonham
Mas os sonhos moram em casas encantadas
Trancadas a sete chaves
É preciso quebrar as portas dos sonhos
Os homens escrevem palavras na água
E na água só sabem ler os peixes, os sapos
Quando os homens se encolhem
Os sapos coaxam
Edilberto Vilanova
O avesso do livro
O avesso do verso
É o tiro
No avesso do livro
O homem consumido
Consumindo o homem
Pelo sangue, pela noite, pela fome
E a mão calejada
E a boca calada
De quem só sabe dizer amém
Vivaldo Simão
É o tiro
No avesso do livro
O homem consumido
Consumindo o homem
Pelo sangue, pela noite, pela fome
E a mão calejada
E a boca calada
De quem só sabe dizer amém
Vivaldo Simão
Haicai do lavrador
A Eduardo Persa
Mais uma colheita,
O riso banguela, a reza...
A vida está feita
Rogério Freitas
segunda-feira, 3 de agosto de 2009
Banditismo
Há alguém a bater à porta
Será a vida ou será a morte?
Alguém a bater à porta
A vida ou a morte?
À porta
A vida ou a morte
Porta
Vida
Morte
À porta
A vida ou a morte
A vida ou a morte?
Morte
Edilberto Vilanova
Será a vida ou será a morte?
Alguém a bater à porta
A vida ou a morte?
À porta
A vida ou a morte
Porta
Vida
Morte
À porta
A vida ou a morte
A vida ou a morte?
Morte
Edilberto Vilanova
Haicai sertanejo
A chuva não cai...
O medo, os filhos, a esposa...
“É o jeito!” E se vai.
Rogério Freitas
O medo, os filhos, a esposa...
“É o jeito!” E se vai.
Rogério Freitas
O galo
O sertanejo bateu as asas
E foi para São Paulo
Eis que levou consigo um galo
E um cabrito enfeitado
Antes do entardecer
O sertanejo brigava com o diabo
Foi quando Deus apareceu
Num trem hidráulico
E disse: paz para um homem cansado!
Eis que quando o trem passou
O galo cantou
E os homens acordaram para o trabalho
E antes do anoitecer
O galo voltou a cantar
E bateu as asas
E o sertanejo voltou pra casa.
Edilberto Vilanova
E foi para São Paulo
Eis que levou consigo um galo
E um cabrito enfeitado
Antes do entardecer
O sertanejo brigava com o diabo
Foi quando Deus apareceu
Num trem hidráulico
E disse: paz para um homem cansado!
Eis que quando o trem passou
O galo cantou
E os homens acordaram para o trabalho
E antes do anoitecer
O galo voltou a cantar
E bateu as asas
E o sertanejo voltou pra casa.
Edilberto Vilanova
Ofício
Por meio deste peço
O verso que não veio
Ao ver a menina sumindo
Com olhos de adeus
Peço o verso pelo encanto
De um par de olhos com pálpebras de chumbo
Ao ver o sol
Com seus dedinhos de menino travesso
Se agarrar à beira da rua
Pra vê-la estendida distraída e nua
Por tudo que foi verde
E belo
E triste
Como aquela noite virando manhã
Vivaldo Simão
O verso que não veio
Ao ver a menina sumindo
Com olhos de adeus
Peço o verso pelo encanto
De um par de olhos com pálpebras de chumbo
Ao ver o sol
Com seus dedinhos de menino travesso
Se agarrar à beira da rua
Pra vê-la estendida distraída e nua
Por tudo que foi verde
E belo
E triste
Como aquela noite virando manhã
Vivaldo Simão
terça-feira, 12 de maio de 2009
Mágica
Meu bem, que a VIDA não vale a pena
E os retratos não guardam alma pequena
O que vale a beleza se não é gentil?
O que vale o sorriso se não é fato consumado?
Não há morte mágica nem sorte que valha
A pena que deixe o espelho assim: torto
O avesso da beleza é um riso frouxo
E a largura do riso tem dentes consumidos
O que vale amar se a beleza tarde?
E a manhã te verá feia
E amanhã baterei à porta de uma nova beleza
E certamente ela baterá a porta e morrerá também
Edilberto Vilanova e Rogério Freitas
E os retratos não guardam alma pequena
O que vale a beleza se não é gentil?
O que vale o sorriso se não é fato consumado?
Não há morte mágica nem sorte que valha
A pena que deixe o espelho assim: torto
O avesso da beleza é um riso frouxo
E a largura do riso tem dentes consumidos
O que vale amar se a beleza tarde?
E a manhã te verá feia
E amanhã baterei à porta de uma nova beleza
E certamente ela baterá a porta e morrerá também
Edilberto Vilanova e Rogério Freitas
Mudança de estação
Nada disse de absurdo
E você fez susto desse amor
Soltou as amarras da âncora que retinha a nau
E a nau sumiu
Como nuvem que chove e se vai
Como fruta caída
Como um caso comum
Só um caso comum!
Mais um romance sazonal
Mas já é outra estação
E os ventos já não varrem folhas de outono...
Vivaldo Simão & Edilberto Vilanova
E você fez susto desse amor
Soltou as amarras da âncora que retinha a nau
E a nau sumiu
Como nuvem que chove e se vai
Como fruta caída
Como um caso comum
Só um caso comum!
Mais um romance sazonal
Mas já é outra estação
E os ventos já não varrem folhas de outono...
Vivaldo Simão & Edilberto Vilanova
A ilha
A poesia inudou minha cama
Minha alma, meus corpo
Meus discos rígidos
Meus livros, meus cenários
Agora, com a luz apagada
Entre as águas que me separam do embaraço
Num mundo de trevas vejo
Um mar de palavras
Um beija-flor que bebe mel
Nos olhos da minha doce namorada
Sonho a face da poesia
Na face da bem amada
Sem susto, sem medo das águas
Não mande navios ou aeronaves
Eu prefiro ficar assim: ilhado
Edilberto Vilanova
Minha alma, meus corpo
Meus discos rígidos
Meus livros, meus cenários
Agora, com a luz apagada
Entre as águas que me separam do embaraço
Num mundo de trevas vejo
Um mar de palavras
Um beija-flor que bebe mel
Nos olhos da minha doce namorada
Sonho a face da poesia
Na face da bem amada
Sem susto, sem medo das águas
Não mande navios ou aeronaves
Eu prefiro ficar assim: ilhado
Edilberto Vilanova
Sonetilho
Como flor desabrochando
No despontar da manhã,
Como pássaro cantando
Nos galhos do flamboyan;
Como rio sobre a serra
Beijando todo o luar,
Como orvalho vindo à terra
Pra semente germinar;
Como lagoa silente
De bom perfume envolvente,
Exalando maravilha;
É a luminosa graça
Dominante que perpassa
No rosto de minha filha.
Rogério Freitas
No despontar da manhã,
Como pássaro cantando
Nos galhos do flamboyan;
Como rio sobre a serra
Beijando todo o luar,
Como orvalho vindo à terra
Pra semente germinar;
Como lagoa silente
De bom perfume envolvente,
Exalando maravilha;
É a luminosa graça
Dominante que perpassa
No rosto de minha filha.
Rogério Freitas
segunda-feira, 30 de março de 2009
Poema Mudo II
Cadê minha voz?
Saltou-me do peito, exaltada
E largou-se num canto
Na noite passada.
Vivaldo Simão
Saltou-me do peito, exaltada
E largou-se num canto
Na noite passada.
Vivaldo Simão
sábado, 28 de fevereiro de 2009
Insone
A "N"
Madrugado
Eu afago a ferida
Metade é cicatriz
Metade, carne viva
Legado do amor sem medida
Que você negou
Vivaldo Simão
O velho
No ranger e calar dos sapatos velhos
Os novos passarão.
Da escassez do sexo
Resta o gesto que adormeceu as mãos
O batom preto que enrijeceu os lábios.
Perto do peito, esfacelados,
O jeito e o segredo
De converter todo mal em desejo
A aurora sem pássaro, anjos ou fantasmas,
As súplicas do acaso
E o repicar dos sinos da divisão.
Edilberto Vilanova
Os novos passarão.
Da escassez do sexo
Resta o gesto que adormeceu as mãos
O batom preto que enrijeceu os lábios.
Perto do peito, esfacelados,
O jeito e o segredo
De converter todo mal em desejo
A aurora sem pássaro, anjos ou fantasmas,
As súplicas do acaso
E o repicar dos sinos da divisão.
Edilberto Vilanova
Jardim de cactus
Devolva-me os sóis
Que queimaram meus pés,
Guarde os cipós
Que arregaçaram minhas mangas
Retalhe as sedas rasgadas pelo cansaço
Desate os nós em nós laçados a sós
E dos ossos quebrados, refaça
Teu jardim de cactos,
Pois está no espinho ensaguentado
O segredo da carne.
Edilberto Vilanova
Que queimaram meus pés,
Guarde os cipós
Que arregaçaram minhas mangas
Retalhe as sedas rasgadas pelo cansaço
Desate os nós em nós laçados a sós
E dos ossos quebrados, refaça
Teu jardim de cactos,
Pois está no espinho ensaguentado
O segredo da carne.
Edilberto Vilanova
Prece Pagã
Quisera não ser eu
Dado ao vício pagão
De ser ateu
Derramaria do meu peito
Uma prece
Por Alice
E nela rogaria ao céu
Que lhe guardasse
De tudo aquilo que não libertasse
Do manto turvo que a vida veste
Quando um amor “desacontece”
E tece-se assim a dura casca
Do casulo, onde as “palarvas”
Teimam em não vingar
Quisera eu que seu amor vingasse
Em alma, em carne, em toque, em ato
Rompesse a pele dos bits abstratos
E apenas fosse feito fato
Vivaldo Simão
Dado ao vício pagão
De ser ateu
Derramaria do meu peito
Uma prece
Por Alice
E nela rogaria ao céu
Que lhe guardasse
De tudo aquilo que não libertasse
Do manto turvo que a vida veste
Quando um amor “desacontece”
E tece-se assim a dura casca
Do casulo, onde as “palarvas”
Teimam em não vingar
Quisera eu que seu amor vingasse
Em alma, em carne, em toque, em ato
Rompesse a pele dos bits abstratos
E apenas fosse feito fato
Vivaldo Simão
Haicai de vida e morte
Um choro ao Norte
Nasceu uma vida;
E, ao sul, Um choro de morte.
Rogério Freitas
Nasceu uma vida;
E, ao sul, Um choro de morte.
Rogério Freitas
sexta-feira, 13 de fevereiro de 2009
Das vertigens e fumaças
Meus amores duram pouco
Têm o tempo de um cigarro
(e eu largando baganas pelo caminho)
E também trazem consigo
Vertigens passageiras
Mas no fim viram fumaça peito afora
Certa vez me dei ao vício
E me achei fumando filtros noite adentro
Até morrer de cansaço
Até perder um pedaço
Do que eu tinha de sagrado
Agora meus amores são tão curtos
Como o tempo de um cigarro
Vivaldo Simão
Têm o tempo de um cigarro
(e eu largando baganas pelo caminho)
E também trazem consigo
Vertigens passageiras
Mas no fim viram fumaça peito afora
Certa vez me dei ao vício
E me achei fumando filtros noite adentro
Até morrer de cansaço
Até perder um pedaço
Do que eu tinha de sagrado
Agora meus amores são tão curtos
Como o tempo de um cigarro
Vivaldo Simão
Ciclo natural
Entre parênteses:
As regras
O gesto de cristal
As conjunções e o feto
Dentro da reta:
A demora de pedra
A cerâmica que se funde e se preserva
A vírgula e o verbo
Dentro das conjugações:
O espectro
O mármore à espera
O parágrafo e o ponto final.
Edilberto Vilanova
As regras
O gesto de cristal
As conjunções e o feto
Dentro da reta:
A demora de pedra
A cerâmica que se funde e se preserva
A vírgula e o verbo
Dentro das conjugações:
O espectro
O mármore à espera
O parágrafo e o ponto final.
Edilberto Vilanova
Inscrição para a margem de um rio
Cantando alegre, o rio segue livremente.
Quer nesses dias claros, quer nas noites turvas
Não para; corre sem temer as grandes curvas
Ocultadas por um caminho inclemente.
E vai andando a contemplar paisagens belas;
Da própria queda faz as lindas cachoeiras......
Passa entre troncos, banha searas inteiras
E na noite só se lembram dele as estrelas.
A vida também segue um curso natural:
Vai deslizando, luta contra todo o mal
E vence algumas coisas que muito reprova.
Mais, porém, é a vida – barra a empecilho!
O rio, em enxurradas, ganha novo brilho
E ela só perde luz, nunca se renova.
Rogério Freitas
Quer nesses dias claros, quer nas noites turvas
Não para; corre sem temer as grandes curvas
Ocultadas por um caminho inclemente.
E vai andando a contemplar paisagens belas;
Da própria queda faz as lindas cachoeiras......
Passa entre troncos, banha searas inteiras
E na noite só se lembram dele as estrelas.
A vida também segue um curso natural:
Vai deslizando, luta contra todo o mal
E vence algumas coisas que muito reprova.
Mais, porém, é a vida – barra a empecilho!
O rio, em enxurradas, ganha novo brilho
E ela só perde luz, nunca se renova.
Rogério Freitas
Guerra fria
Não diga palavra
Melhor ouvir silêncios
Pontuando o ruído da artilharia
Foram tiros na rua?
Ou é só meu peito que se agita?
Sabe lá...Às vezes o amor se parece mesmo com a guerra
E já perderam-se as contas
De tantos feridos.
E nós, que já cruzamos o limite do perigo?
Frente a frente no front
Perdemos as armas
E a trilha da volta.
Estendo uma mão de aliado
No espaço vazio onde outrora eu vi tua mão
E desaprendo a estratégia que eu mesmo armei
Então lhe deixo ir, por mero cansaço.
Vivaldo Simão
Melhor ouvir silêncios
Pontuando o ruído da artilharia
Foram tiros na rua?
Ou é só meu peito que se agita?
Sabe lá...Às vezes o amor se parece mesmo com a guerra
E já perderam-se as contas
De tantos feridos.
E nós, que já cruzamos o limite do perigo?
Frente a frente no front
Perdemos as armas
E a trilha da volta.
Estendo uma mão de aliado
No espaço vazio onde outrora eu vi tua mão
E desaprendo a estratégia que eu mesmo armei
Então lhe deixo ir, por mero cansaço.
Vivaldo Simão
O trem não vai parar
O trem não vai parar
Dançando com cheiro de fumaça,
Ele leva carne de charque
Pinta o sete, e lavra, fecundando flores
Caixas de abelhas cheias de saudades
Que se não catasse palavras não escaparia pela válvula.
Novamente a carne seca e toda safra de arroz e feijão já convertida em festa,
Nesse baião arisco, corta a chapada do corisco
Beija as sete portas encantadas
E encontra as sete cidades perdidas.
Edilberto Vilanova
Dançando com cheiro de fumaça,
Ele leva carne de charque
Pinta o sete, e lavra, fecundando flores
Caixas de abelhas cheias de saudades
Que se não catasse palavras não escaparia pela válvula.
Novamente a carne seca e toda safra de arroz e feijão já convertida em festa,
Nesse baião arisco, corta a chapada do corisco
Beija as sete portas encantadas
E encontra as sete cidades perdidas.
Edilberto Vilanova
quarta-feira, 28 de janeiro de 2009
Tom
Lá onde tudo é escuro,
Em mim, sem dó, há um si menor,
Onde brilha um sol maior.
Edilberto Vilanova
Em mim, sem dó, há um si menor,
Onde brilha um sol maior.
Edilberto Vilanova
Miragens de Luz e Mar
Luz
De apagar escuro
De acenar um porto
(Canto de sereia inverso)
Mas se mira os olhos do navegador
Desfaz a guia e cega
Claridade magnética suga
Planetas-insetos
À órbita de uma estrela fria
Mar
De seguir viagem, navegar
Vislumbrando continentes impalpáveis
Universo submerso de onde insurge um canto
De sereia aos navegantes, já distantes
Dos faróis do porto
Que perdem se do Norte, em rumo torto
E presos pelo fado do naufrágio, bebem doce morte:
Deixam-se levar azul adentro pela água fria
Por sobre o mar, a luz reflete o azul
Tornando o mar também azul, mera miragem
Por sobre o mar o mesmo céu de cujo ventre
Vi derramar anjos cadentes
Trazendo em si divinas dádivas
Dadas às dádivas da carne
E desse amálgama vi teu corpo despertar
Vivaldo Simão
De apagar escuro
De acenar um porto
(Canto de sereia inverso)
Mas se mira os olhos do navegador
Desfaz a guia e cega
Claridade magnética suga
Planetas-insetos
À órbita de uma estrela fria
Mar
De seguir viagem, navegar
Vislumbrando continentes impalpáveis
Universo submerso de onde insurge um canto
De sereia aos navegantes, já distantes
Dos faróis do porto
Que perdem se do Norte, em rumo torto
E presos pelo fado do naufrágio, bebem doce morte:
Deixam-se levar azul adentro pela água fria
Por sobre o mar, a luz reflete o azul
Tornando o mar também azul, mera miragem
Por sobre o mar o mesmo céu de cujo ventre
Vi derramar anjos cadentes
Trazendo em si divinas dádivas
Dadas às dádivas da carne
E desse amálgama vi teu corpo despertar
Vivaldo Simão
Paráfrase
Os três mal amados, enfim, perceberam que o amor simboliza a morte do homem. Raimundo tangia o vapor de Maria e João espreitava os amantes de Teresa, enquanto o terceiro mal amado, por não saber mais do amor que agonizava dentro do seu peito, passou a maldizer os amantes, os derradeiros românticos que tomavam sorvete de morango na praça das alianças. E o diálogo era sempre o mesmo: num ranger de ossos, Raimundo dizia que o querer é a morada do ócio. Devorado, João cantava que é tempo de se dividir nos outros. Rejeitado, o terceiro mal amado olhava de lado, fazia pouco caso e para não liquidificar a dor, escapava pela válvula, evasivo, embebia o cálice, pois a pele cálida ganhara gélidos segredos. O tempo é um açoite, findou-se o tempo de amar, agora tudo é carne, prepare seus cutelos e leve suas cabeças ao matadouro, eis a fala da terceira pessoa do singular. Para ele não havia Teresa, nem Maria, apenas flores murchas agonizando no asfalto, e a falta que se proliferava, em reversos virava fera. No peito já velado, o palpitar mórbido, que de todo modo configurava-se em reminiscências sórdidas. Hostil, ele viu que o mundo todo é vil, e a luz da praça das alianças, já mortiça, tornou-se a própria escuridão. As identidades foram comidas, pois no escuro todas as identidades possuem a mesma cara. O vapor de Maria evaporou e virou nuvem, Raimundo fez-se empresário, João descobriu que Teresa era lésbica, e como ela, travestiu-se de outro sexo. Por não encontrar identidade, subversivo, o terceiro mal amado dispersou-se, ocultou o nome na poeira da solidão e foi devorado na pista de dança.
Edilberto Vilanova
Edilberto Vilanova
À lua
Muita alvacenta, plácida, bonita,
Lúbrica indiferente, cristalina,
A lua entre duas nuvens negras
As faz parecer com uma cortina.
Rogério Freitas
Lúbrica indiferente, cristalina,
A lua entre duas nuvens negras
As faz parecer com uma cortina.
Rogério Freitas
Porto
Quando caírem os dentes
Restará amor no peito
E quando minguarem os sexos
Ainda haverá desejo
De ser extensão do outro
Ainda haverá o beijo
Ói que o rio ligeiro desabou num mar
Tão maior que os continentes que abrigam os rios
O mar é pleno!!!
Já não corre, já não busca
O mar é porto
Posto sobre a terra
Beija o horizonte e a praia
E bebe o azul do céu
Quando vierem as rugas
Quando emergirem os rasgos
Indícios do tempo passado presentes
Não te pintes
Não te espantes
Se eu quiser teu corpo
Como queria antes
E brincar na tua pele sem retoques
E quando o velho peito
Sucumbir de cansaço
Antes de dormir
Façamos um pacto
Seremos sempre um nó
E brincaremos numa brisa
Quando formos pó.
Vivaldo Simão
Restará amor no peito
E quando minguarem os sexos
Ainda haverá desejo
De ser extensão do outro
Ainda haverá o beijo
Ói que o rio ligeiro desabou num mar
Tão maior que os continentes que abrigam os rios
O mar é pleno!!!
Já não corre, já não busca
O mar é porto
Posto sobre a terra
Beija o horizonte e a praia
E bebe o azul do céu
Quando vierem as rugas
Quando emergirem os rasgos
Indícios do tempo passado presentes
Não te pintes
Não te espantes
Se eu quiser teu corpo
Como queria antes
E brincar na tua pele sem retoques
E quando o velho peito
Sucumbir de cansaço
Antes de dormir
Façamos um pacto
Seremos sempre um nó
E brincaremos numa brisa
Quando formos pó.
Vivaldo Simão
Ensaio
Não verei mais os cubos de rodas vivas
Desenrolando as tranças de estações e gestos
Verei ainda o aguaceiro das rotas de ilhas,
E fragmentos para fecundar o passo
Não mais verei rosas místicas, nem cáctos.
Dessa esfera ficará o esforço para ser círculo
Verei ainda o desbotamento das árvores
E um ensaio de rastro para alimentar o passo
Deixarei nódoas e mãos esmagadas pelo salto
Uma tarja negra, o silêncio e dedos na parede.
A pele cálida ganhará gélidos segredos.
E de tanto saltar verei apenas o esboço do passo.
Edilberto Vilanova
Desenrolando as tranças de estações e gestos
Verei ainda o aguaceiro das rotas de ilhas,
E fragmentos para fecundar o passo
Não mais verei rosas místicas, nem cáctos.
Dessa esfera ficará o esforço para ser círculo
Verei ainda o desbotamento das árvores
E um ensaio de rastro para alimentar o passo
Deixarei nódoas e mãos esmagadas pelo salto
Uma tarja negra, o silêncio e dedos na parede.
A pele cálida ganhará gélidos segredos.
E de tanto saltar verei apenas o esboço do passo.
Edilberto Vilanova
A formiga e a cigarra
E cantou todo o verão a cigarra,
Por isso viu o inverno de fadiga
Chegar sem nada ter; com a fome esbarra
E vai pedir uma ajuda à formiga.
Mas, esta, da vadiagem inimiga,
Associou sua vizinha à farra;
Negou a ajuda e fez pouco da amiga
Com uma sutil pitada de algazarra;
À cigarra mostrou toda a riqueza
Que ela só construíra com suor
E se exaltava a dizer: - Que beleza!
Mas disse a cigarra longe de otário* -
O fruto da lida só tem valor
Quando o seu dono é um pouco solidário! ·
*Concordância correta é otária.
Rogério Freitas
Por isso viu o inverno de fadiga
Chegar sem nada ter; com a fome esbarra
E vai pedir uma ajuda à formiga.
Mas, esta, da vadiagem inimiga,
Associou sua vizinha à farra;
Negou a ajuda e fez pouco da amiga
Com uma sutil pitada de algazarra;
À cigarra mostrou toda a riqueza
Que ela só construíra com suor
E se exaltava a dizer: - Que beleza!
Mas disse a cigarra longe de otário* -
O fruto da lida só tem valor
Quando o seu dono é um pouco solidário! ·
*Concordância correta é otária.
Rogério Freitas
Baião de três
A palavra farta à mesa posta:
Prato que se serve quente
A dança a língua e o dente
Ao redor da palavra.
O prato feito, self service,
Carne de charque, arroz e feijão,
À mesa farta a língua dança
Bossa nova, rock e baião
Edilberto Vilanova & Vivaldo Simão
Prato que se serve quente
A dança a língua e o dente
Ao redor da palavra.
O prato feito, self service,
Carne de charque, arroz e feijão,
À mesa farta a língua dança
Bossa nova, rock e baião
Edilberto Vilanova & Vivaldo Simão
Natal branco
As crianças espreitaram a fúria do mundo
E mudas cairam no viaduto
Vingou o fruto pedregulho da sina,
A assassina de luas minguantes,
A nudez da voz, estampidos dentro da noite,
Malabarismo no farol, o olho torpe do consumismo,
O riso ensanguentado e o escárnio.
O segredo dos lábios, o beijo branco
No confronto de cores
De um dia pálido
E entrecortadas, palavras ávidas.
A desesperada réstia de esperança
E apenas um embrulho
Para celebrar a magnitude da vida.
Edilbero Vilanova
E mudas cairam no viaduto
Vingou o fruto pedregulho da sina,
A assassina de luas minguantes,
A nudez da voz, estampidos dentro da noite,
Malabarismo no farol, o olho torpe do consumismo,
O riso ensanguentado e o escárnio.
O segredo dos lábios, o beijo branco
No confronto de cores
De um dia pálido
E entrecortadas, palavras ávidas.
A desesperada réstia de esperança
E apenas um embrulho
Para celebrar a magnitude da vida.
Edilbero Vilanova
sábado, 3 de janeiro de 2009
domingo, 14 de dezembro de 2008
Estiagem
O beijo se desfez.
De resto sobrou apenas
Um pano bordado
E a cor da chita
Se espalhando por toda a casa,
Um mosaico encantado
E um canto nostálgico
Pulando do pé de juazeiro
Angico ligeiro, que dirá desse
Amor que acabou?
Que vento passou por aqui
Que derrubou o velho umbuzeiro?
E esse azedume que levou
Todo o doce de todo mel
Dessa última safra
Quem chorou no fim do inverno?
Quem disse adeus?
E a roupa dele, quem lavará?
Quem fará as costuras
Que estão faltando na velha roupa?
Ela, que já se acostumara com a lágrima
O viu chorar
A zabelê de olhos anil se cansou da fuga
Cessou o cantar
E agora, entorta as costuras
A outra, com lábios corrosivos,
Corroeu o que ainda restava desse amor
O beijo se desfez, as bocas estão bordadas.
Edilberto Vilanova
De resto sobrou apenas
Um pano bordado
E a cor da chita
Se espalhando por toda a casa,
Um mosaico encantado
E um canto nostálgico
Pulando do pé de juazeiro
Angico ligeiro, que dirá desse
Amor que acabou?
Que vento passou por aqui
Que derrubou o velho umbuzeiro?
E esse azedume que levou
Todo o doce de todo mel
Dessa última safra
Quem chorou no fim do inverno?
Quem disse adeus?
E a roupa dele, quem lavará?
Quem fará as costuras
Que estão faltando na velha roupa?
Ela, que já se acostumara com a lágrima
O viu chorar
A zabelê de olhos anil se cansou da fuga
Cessou o cantar
E agora, entorta as costuras
A outra, com lábios corrosivos,
Corroeu o que ainda restava desse amor
O beijo se desfez, as bocas estão bordadas.
Edilberto Vilanova
Marcadores:
Edilberto Vilanova,
Estiagem,
fim de ciclo
sexta-feira, 12 de dezembro de 2008
Lua Godiva
Lady Godiva, cavalga no céu
Sob os olhos de ninguém
É a lua em pelo, a pele pálida
A transpirar desejo no espaço
Exalando perfume do enlace de sexos
A Lua, nua, a lamber o céu
Espaira-se a espreita de olhos famintos
Aos quais possa cegar
Vivaldo Simão
Sob os olhos de ninguém
É a lua em pelo, a pele pálida
A transpirar desejo no espaço
Exalando perfume do enlace de sexos
A Lua, nua, a lamber o céu
Espaira-se a espreita de olhos famintos
Aos quais possa cegar
Vivaldo Simão
Haicai dos Frêmitos Noturnos
Correm livremente
O vento e as folhas mortas,
A noite é plangente.
Rogério Freitas
O vento e as folhas mortas,
A noite é plangente.
Rogério Freitas
Funcionário público
Meu Negócio
É o ócio!!!
Edilberto Vilanova
Marcadores:
Edilberto Vilanova,
funcionario público
quarta-feira, 3 de dezembro de 2008
Efeito estufa
Vorazes e alheias ao corpo
Balas de metal cortam a avenida
Criam um mar sobre nossas cabeças
E um túmulo sobre nossos pés
No asfalto, pequenas flores murchas
Termicamente invertidas, agonizam
Sobrevivem aos tragos de minerais e gáses enfurecidos
É o desatino exato da prole do inseto
Que formula seu próprio inceticida
Acedam incensos para a morte
Que na metrópole ninguém chora
Ou será que ninguém ama?
Estamos no fim dos tempos
É a evasão total do amor
Uma vez província sempre província
A louca da esquina queria saber
Porque o jornaleiro se matou
Será que nos jornais não há mais palavras de amor?
Acedam incensos para morte que na metrópole ninguém chora
Tumulto!
Abalou-se a avenida central
O que foi?
Foi suicídio
Ele envenenou-se com fumaça
E morreu asfixiado
Automóveis movem a morte
Há árvores mortas na calçada
Há canções mortas seguindo o cortejo
Há jornais sobre o corpo do jornaleiro
Edilberto Vilanova
Balas de metal cortam a avenida
Criam um mar sobre nossas cabeças
E um túmulo sobre nossos pés
No asfalto, pequenas flores murchas
Termicamente invertidas, agonizam
Sobrevivem aos tragos de minerais e gáses enfurecidos
É o desatino exato da prole do inseto
Que formula seu próprio inceticida
Acedam incensos para a morte
Que na metrópole ninguém chora
Ou será que ninguém ama?
Estamos no fim dos tempos
É a evasão total do amor
Uma vez província sempre província
A louca da esquina queria saber
Porque o jornaleiro se matou
Será que nos jornais não há mais palavras de amor?
Acedam incensos para morte que na metrópole ninguém chora
Tumulto!
Abalou-se a avenida central
O que foi?
Foi suicídio
Ele envenenou-se com fumaça
E morreu asfixiado
Automóveis movem a morte
Há árvores mortas na calçada
Há canções mortas seguindo o cortejo
Há jornais sobre o corpo do jornaleiro
Edilberto Vilanova
domingo, 23 de novembro de 2008
Nostalgia de um velho
Recordo meus amigos de criançola...
Ah! Foram tantos! E na minha rua,
Naquelas tardes de brisa tão nua,
Os gudes no “pezin” de castanhola.
Dividíamos nós felicidade,
Tristeza, decepções, sonhos de infância,
Segredos, as primeiras esperanças,
E os primeiros sinais da puberdade.
Mas depois, esta senda foi ficando
No olvido da mudança, para trás;
Muito célere o tempo foi passando...
Só, trilho hoje e estrada com meus ais;
E às vezes digo a mim mesmo chorando:
-“Não seremos aquilo nunca mais!”
Rogério Freitas
Ah! Foram tantos! E na minha rua,
Naquelas tardes de brisa tão nua,
Os gudes no “pezin” de castanhola.
Dividíamos nós felicidade,
Tristeza, decepções, sonhos de infância,
Segredos, as primeiras esperanças,
E os primeiros sinais da puberdade.
Mas depois, esta senda foi ficando
No olvido da mudança, para trás;
Muito célere o tempo foi passando...
Só, trilho hoje e estrada com meus ais;
E às vezes digo a mim mesmo chorando:
-“Não seremos aquilo nunca mais!”
Rogério Freitas
Carnaval
Já desperto o sonho de mortos vivos,
Acabrunhados pelo sono em apoteoses,
Fantoches e confetes dão vau à carne.
A felicidade bate à porta
E sem demora, avisa que veio pra ficar.
Edilberto Vilanova
Acabrunhados pelo sono em apoteoses,
Fantoches e confetes dão vau à carne.
A felicidade bate à porta
E sem demora, avisa que veio pra ficar.
Edilberto Vilanova
Parto
Este sou eu: alguém que busca.
Ante a hermética face que eu não conhecia
Eis que estou aqui, buscando em mim
Um resquíscio qualquer de poesia
E a poesia, o que é?
Um jorro do magma dos subterrâneos do meu peito?
Uma polaróide do universo exterior filtrado e impresso?
E a poesia, como fazê-la?
Encaro-a, esfinge, sem sabê-la
E ela ri com o canto da boca e diz:
"Decifra-me ou te devoro!":
"A poesia é a pergunta e a própria resposta"
Eis que pari um poema
Vivaldo Simão
Ante a hermética face que eu não conhecia
Eis que estou aqui, buscando em mim
Um resquíscio qualquer de poesia
E a poesia, o que é?
Um jorro do magma dos subterrâneos do meu peito?
Uma polaróide do universo exterior filtrado e impresso?
E a poesia, como fazê-la?
Encaro-a, esfinge, sem sabê-la
E ela ri com o canto da boca e diz:
"Decifra-me ou te devoro!":
"A poesia é a pergunta e a própria resposta"
Eis que pari um poema
Vivaldo Simão
Coisa antiga
Nem bem nasci
E já parto
Nem bem nasceu
E já parto
Nem bem nasceu
E já Parto
Minha mãe não tinha noção
De planejamento familiar.
Rogério Freitas
E já parto
Nem bem nasceu
E já parto
Nem bem nasceu
E já Parto
Minha mãe não tinha noção
De planejamento familiar.
Rogério Freitas
Identidade
Em mim não há idade, nem festa
Em mim não há história, nem fósseis
Em mim não há rótulo, nem sexo
O que está em mim se q u e b r a.
Edilberto Vilanova
Em mim não há história, nem fósseis
Em mim não há rótulo, nem sexo
O que está em mim se q u e b r a.
Edilberto Vilanova
quinta-feira, 20 de novembro de 2008
terça-feira, 18 de novembro de 2008
Vidente
Vidente, eu morro todos os dias,
A tanger o amargo e irresoluto luto das horas.
Fugidio vejo o abismo e derramo rosas,
Elas escorrem sem perfume
Pelo espelho oco do homem
E onde estão os dias que me fogem?
Onde se escondem as palavras que me sobram?
Procura inútil entre a divisão de mundos.
Onde começa e termina tudo.
Toda morte é por amor, por um punhado
Do pão que nasce e morre todos dias
E a ferida que sangra, pulsa, vibra, devora-se.
Vê-la esvaindo-se e não poder gritar
É rejeitar os trejeitos da dor.
Edilberto Vilanova
A tanger o amargo e irresoluto luto das horas.
Fugidio vejo o abismo e derramo rosas,
Elas escorrem sem perfume
Pelo espelho oco do homem
E onde estão os dias que me fogem?
Onde se escondem as palavras que me sobram?
Procura inútil entre a divisão de mundos.
Onde começa e termina tudo.
Toda morte é por amor, por um punhado
Do pão que nasce e morre todos dias
E a ferida que sangra, pulsa, vibra, devora-se.
Vê-la esvaindo-se e não poder gritar
É rejeitar os trejeitos da dor.
Edilberto Vilanova
quinta-feira, 13 de novembro de 2008
Canção Ébria
Último gole
As coisas todas diáfonas:
Tudo um sonho!
Agora nem pieguices,
Nem dores,
Nem remorsos,
Nem preocupações
Livre de todos os males:
O corpo leve
A mente vaga
Passos descompassados
Entre faróis e buzinas
Pisadas em poças de lama
Tropeços e mais tropeços
O sono pesado,
O desequilibrio,
A queda,
A cama na calçada
Rogério Freitas
As coisas todas diáfonas:
Tudo um sonho!
Agora nem pieguices,
Nem dores,
Nem remorsos,
Nem preocupações
Livre de todos os males:
O corpo leve
A mente vaga
Passos descompassados
Entre faróis e buzinas
Pisadas em poças de lama
Tropeços e mais tropeços
O sono pesado,
O desequilibrio,
A queda,
A cama na calçada
Rogério Freitas
quarta-feira, 12 de novembro de 2008
O tempo e a matéria
Um poeta sem matéria
Desfolha a alma,
Flerta o lado torto do verso e espera:
Palavras e resíduos de festas.
Desmaterializado, o verso se industrializa.
Dissimulado, simula o espetáculo,
Encrespa-se, encrava-se e se infesta.
Infestado, imerge e se entristece
E assim, com olhos caleidoscópicos,
O poema, oráculo, copia os séculos
O espetáculo se entardece
E o poeta, binóculos desorbitado,
Decai com a cadência das décadas
E a matéria, já decomposta vira feto,
Enfim, o tempo e o fim.
Descompassado, o poema se emudece.
Edilberto Vilanova
Desfolha a alma,
Flerta o lado torto do verso e espera:
Palavras e resíduos de festas.
Desmaterializado, o verso se industrializa.
Dissimulado, simula o espetáculo,
Encrespa-se, encrava-se e se infesta.
Infestado, imerge e se entristece
E assim, com olhos caleidoscópicos,
O poema, oráculo, copia os séculos
O espetáculo se entardece
E o poeta, binóculos desorbitado,
Decai com a cadência das décadas
E a matéria, já decomposta vira feto,
Enfim, o tempo e o fim.
Descompassado, o poema se emudece.
Edilberto Vilanova
Dois virgens
Um noturno de Chopin,
O vinho tinto,
O aroma da amanhã,
O inceso,
O silêncio
Assentando sobre o quarto
Envolto pela ânsia e a meia-luz
Dois pares de olhos flamejantes,
Hesitantes olhos!
E a brancura dos lençóis:
Oceano insinuante de águas serenas
Nos convida a navegar
Sendo partida e destino um do outro
Agora, a nossa volta ruídos serenos
E a vida que se derrama silenciosa e lenta
Uma brisa se insinua entre as flores
E eu prendo o instante entre os dedos,
Enquanto o tenho junto das mãos
As mãos que são dadas às
E te convidam a provar comigo
A maravilha de viver
Lá fora a cidade adormecida e quente
Parece incapaz
De supor nós dois.
Vivaldo Simão
O vinho tinto,
O aroma da amanhã,
O inceso,
O silêncio
Assentando sobre o quarto
Envolto pela ânsia e a meia-luz
Dois pares de olhos flamejantes,
Hesitantes olhos!
E a brancura dos lençóis:
Oceano insinuante de águas serenas
Nos convida a navegar
Sendo partida e destino um do outro
Agora, a nossa volta ruídos serenos
E a vida que se derrama silenciosa e lenta
Uma brisa se insinua entre as flores
E eu prendo o instante entre os dedos,
Enquanto o tenho junto das mãos
As mãos que são dadas às
E te convidam a provar comigo
A maravilha de viver
Lá fora a cidade adormecida e quente
Parece incapaz
De supor nós dois.
Vivaldo Simão
domingo, 9 de novembro de 2008
quarta-feira, 5 de novembro de 2008
Experimental
Um,
dois,
três
Textando!
Vivaldo Simão
dois,
três
Textando!
Vivaldo Simão
Marcadores:
Concretismo,
Concretista,
Experimental,
Vivaldo Simão
sábado, 25 de outubro de 2008
Estéril silêncio
Há dias espero
Por uma palavra,
Uma mera palavra
Que possa ser o fio
Da meada
Uma palavra seminal
...E minha cabeça...
Minha cabeça prenhe de nada!
Vivaldo Simão
Por uma palavra,
Uma mera palavra
Que possa ser o fio
Da meada
Uma palavra seminal
...E minha cabeça...
Minha cabeça prenhe de nada!
Vivaldo Simão
Assinar:
Postagens (Atom)

